Quem sou eu

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- O que escrevo? Não sei. Só sei que minha alma grita e eu já não posso mais abafar nem conter essa ânsia.

sexta-feira, outubro 31, 2014

a vida é mais

faz um ano
depressão
e de repente
seus olhos não têm brilho
seu rosto de expressão cinza
não sorri
faz um ano
depressão
e de repente
qualquer dia é inevitável
qualquer hora é sono
qualquer comida insossa
faz um ano
depressão
e de repente
tu acordas
as janelas se abrem
o sol desponta lá fora e tu notas
faz um minuto
qualquer sentimento móvel
absoluta certeza insegura no coração
as árvores florescem
a grama verde do vizinho
te convida para um passeio
faz dois minutos
vida
dor e náusea
sofrimento e solidão
angústia e amor
paz e felicidade
faz um dia
o ano inteiro
a boca semiaberta basta
a depressão desentoca contigo da cama
contigo na rua
contigo na grama

a vida é mais bonita

sexta-feira, outubro 03, 2014

sinal vermelho

eu, semáforo

sinalizo a passagem do tempo
admito a velocidade
deixo lento transpor o vento

eu, semáforo

tudo por mim passa
semáforo eu, fico

sinal vermelho para mim

terça-feira, setembro 30, 2014

feniletilamina

no caminho para a casa
pelotas
tudo cinza
do céu que eu vejo
ao chão que caminho
não pertenço

uma angústia consome 
quase tudo
o desejo de vida resiste,
reside insone em meio ao caos

a chuva
a rua alagada
um lírio fugindo
da sacada do terceiro andar
exibe para mim
uma brecha da eternidade

sexta-feira, setembro 26, 2014

a utilidade da escuridão

é preciso saltar do trampolim da inexatidão
e mergulhar
mergulhar de cabeça no fundo do poço
com os pulmões cheios de ar
encostar com os dois pés no seu chão
nadar na tristeza
desbravar sua latência
para reconhecer sua própria fortaleza
/intrínseca e atuante nas causas mais urgentes

quanto maior o mergulho
melhor o domínio
e a cura de si mesmo

mergulhar
mergulhar
mergulhar

o fundo do poço
também é um bom lugar para se estar

terça-feira, setembro 23, 2014

sobre isolda campos

a conversa perdida
em noite de lua cheia
tudo vazio lhe soa
até flor de laranjeira
já não cheira

quarta-feira, setembro 17, 2014

do google

desconsidera o papel
a rima oca harmoniza com o mouse livre
a técnica volátil da caneta sem tinta
a energia que nunca esgota
a métrica que acompanha os caracteres alucinados
renderizados na melancolia de noites sem estrelas
só a luz da tela lcd – não mais lsd –
só a luz da lua artificial ilumina
as dores modernas
dos amores antigos
da fome de antes
da miséria de agora
o cursor piscando na tela
o brilho da escuridão é quem conduz o poeta
do homem de neandertal
ao revolucionário hacker de poemas
ocultos nas entrelinhas bot do meu coração

segunda-feira, setembro 15, 2014

resposta

não me interrogue
a resposta está aqui
é o próprio poema
o resultado da palavra
o significado e o seu sentido
o verbo rouco de tanto gritar
o sujeito nu de tanto se mostrar

sexta-feira, setembro 12, 2014

sobre quem toca e permanece sempre em mim

                                          para g.f.
te vi
pelo vidro da porta
e foi como se
todas as portas do mundo
abrissem para um mundo inteiramente novo

quinta-feira, setembro 11, 2014

universo que o meu olho enxerga além

se estou
de fato nesse mundo
meu universo
vai além do
meu umbigo
meu universo é
o que afeta
assombra
fere
contamina
meu olhar até o japão
a dor do garotinho chinês
que se enforcou com o cinto
por não ter tirado boas notas na escola
a bomba que caiu sobre uma mesquita em teerã
o urubu que comeu os restos
do pequeno africano
ainda com vida
definhando na beira da estrada
a chuva que afogou os paulistas
a mesma que não matou a sede do povo sertanejo
o meu universo
enquanto ser observador
ser, até mesmo, atuante
nesse lugar
vai além da minha própria
e humilde dor
meu universo
somos nós
em conjunto e coro
uníssono
que o meu olho enxerga
pela tela plana
que o meu ouvido escuta
quando durmo para acordar

quarta-feira, setembro 10, 2014

tudo tanto

tão lírica a vida
tão poético o viver
me desato
em rimas
que qualquer um
me pode saber

segunda-feira, setembro 08, 2014

dentro de mim

dentro de mim
habita uma tristeza intocável
um abismo imensurável
um dano irreparável

dentro de mim
mora o perigo

no fundo infindo
de mim
um parasita chamado lembrança

sexta-feira, setembro 05, 2014

anotações em agudo carmim

    (para giovana gonçalves)


batom
vermelho borrou
o espelho
do banheiro imediatamente
tocou gal na sala os deuses
conspirando para eu me
lembrar de ti vermelha
refletida imagem o amor
inexplicável de poesia pura
eu só transcrevo
a saudade em mim
manchada de carmim

quinta-feira, setembro 04, 2014

quarta-feira, setembro 03, 2014

vale-transporte para vênus

bucólicas passagens
sobre o tempo
à espera do ônibus
tudo poderia ter sido perfeito

terça-feira, setembro 02, 2014

um poema puxa outro

a prova de que nem tudo é dor
quando se vai escrever melancolia
e, por duas vezes, se escreve melancia
melancia
melancia
é fome, dirão
e fome, eu digo,
quando a barriga forrada
é felicidade
é isso satisfação
a poeira assentada

o reverso da melancolia que outrora no cardápio continha mas não enchia

sexta-feira, agosto 29, 2014

poemeto da passagem

anotações vãs

milenar é a paz que
recai muda sobre o colo
da contemplação dessa manhã

quarta-feira, agosto 27, 2014

isto é o nada por excelência

sentimento claustrofóbico
o coração dilacerado
cingindo a dor que não

não é solidária
não absolve ninguém
não ameniza chaga alguma
não há dimensão ou parâmetro

para isso
é isto um homem?
o corte no tempo
o espaço aniquilado
a palavra sem voz
o som sem propagação

a dor solidária
não previne o trauma

a dor solidária
é só mais um elemento solitário
no espaço de tempo
da vida já exaurida

isto é o nada

cabisbaixo por sê-lo

segunda-feira, agosto 25, 2014

quinta-feira, agosto 21, 2014

a vida inicia quando poesia

eu canto porque
me desata o nó
preso na garganta

como o laço de fita
que embrulha
esse presente chamado V I D A

...

eu, canto
a vida, alivia

terça-feira, agosto 19, 2014

2vezes/dia

nada fere
meus olhos úmidos
a menos que
eu tire os óculos
e não use lacrimol
no mais,
eu fito
com um carinho não cego
que tudo vê
e que tudo pode amar
se deixar ser

quinta-feira, agosto 14, 2014

rodas de netunos e prosas que não fui convidada

tão pequena que não cabe
num banquete moderno
de palavras astronômicas
líricas das pungentes
marés acadêmicas
rima o oco com
o ogro da alma
moribunda, coitada
num lugar onde
o que fica
é o nome

não a poesia

quarta-feira, agosto 13, 2014

segunda-feira, agosto 11, 2014

a l i n h a

quando
o
sono
se
alinha
o
coração
se
alinha
chakra
se
alinha
planeta
se
alinha
universo
se
alinha
eu
me
alinho
você
minha
linha

quinta-feira, agosto 07, 2014

porque hoje não venta

ondas que batem nas costas
te empurram para ver o mar

[ ]

mas a solidão do mar
também é minha

a ilusão da mulher do marinheiro
também sou eu

[ ]

me socorre
porque hoje não venta
hoje o barco não chega

terça-feira, agosto 05, 2014

na minha cabeça tocou uma milonga em sete cordas

sinto a febre
tenho o desvario
das exclamações em fila
cada uma em seu lugar
à espera 
de ser a próxima
a exaltar
o que em mim vibra

numa canção
dedilhada pelos dedos hábeis
ramilescos
que nem o próprio
sabe que existe
mas existe
porque tocou depois disso

estás ouvindo?

terça-feira, julho 29, 2014

auto-poemecimento

transcendo

atinjo o limite
fora do que sou
/já não sou

meu corpo
não é mais o mesmo
tudo vibra em mim
em ritmo próprio
único

já não tenho febre
já não sinto frio
não sou
sendo

tenho em mim
o que pulsa
e não é o sangue
correndo pelas veias
o caminho vai além
já não sou
sendo

transcendendo

renasço
corpo nu
levita no que vai
levita no que vem
ninguém ao lado
/todo mundo dentro

transcendo

e o que em mim havia
explode em cores tranquilas
vibra em sabores inigualáveis
já não sou
sendo
e sendo: vou além do que sou



~escrito enquanto eu dormia~

quinta-feira, julho 24, 2014

exposto

há necessidade
urgente em desatar
a voz em nós de verbos
conjunções alarmantes
atuam nas minhas orações diárias
deus sabe o que prego
faço gosto dos quadros nas paredes
tudo exposto
em tons diferentes: sou

terça-feira, julho 22, 2014

sábado, julho 19, 2014

pont(fact)ual

de todos os compromissos:
para acordar, eu demoro
mas nunca me atraso
nunca deixo 

apesar de

quinta-feira, julho 17, 2014

eram passos cansados de dançar a mesma dança



se há escuridão
que emerge
há luz
que propaga
a clarividência das coisas todas
por mais ínfimas, íntimas e efêmeras
que elas sejam

quinta-feira, julho 10, 2014

icto

sem forças
o mundo segue
exige minha presença
sem forças para abrir porta
não é desleixo
não é falta de carinho
não é pouca amizade
só tenho dormido muito
e os dias não passam
a vida que segue
é sempre a mesma
eu não atendo aos telefonemas
não respondo aos e-mails
não converso com o espelho
tento adormecer
a dor que me aperta o peito
que sufoca minha garganta
eu engasgo em mim
tenho sido demais
para o meu pouco espaço
para o meu corpo pequeno
minh’alma quer se desprender
de mim
e eu dou umas porradas
como quando a gente
faz com as malas cheias
mas eu continuo caindo
pelos lados de mim
transbordando nesse corpo
apertado, desanimado que carrego
é químico, berram!
é cármico, assumo!
sou eu
apenas eu
que não caibo mais no que estou sendo


sexta-feira, julho 04, 2014

meia noite e cinza

desses nós noturnos
que sufocam a dor goela abaixo
e não explodem nunca a vida
/para quê tanto adiar o rompimento
se mal paro em pé
durante o dia com essa sina?

quinta-feira, julho 03, 2014

não me encontro mais

passo os olhos em fotos antigas
e deixo escorrer
a pergunta derradeira

em qual parte do caminho
eu me deixei ficar?
onde estou
que não me encontro mais?

qualquer coisa suicida
eclode da janela
do vigésimo andar

quarta-feira, julho 02, 2014

terça-feira, julho 01, 2014

poesia você


tem quem faça
poesia com palavras
e tem você
que faz poesia existindo
me faz poeta
ao te enxergar
sorrindo os olhos
como quem para a vida
diz te amo
no lugar de bom dia

segunda-feira, junho 30, 2014

olhar atento

na vida
mais do que
aguçar os ouvidos
é preciso espreitar a vista
porque o amor
muitas vezes não fala
mas em todas as vezes

ele age

segunda-feira, junho 23, 2014

esse crisântemo sobrevive a qualquer pântano

                            para Cris Passos

não refiras
a ti mesma
como sendo desastre
total de uma falta de verão
passado
te sinta apenas
como a gota d'água
desse pranto que não seca
e é bom que não seque
no lugar onde há terra molhada
há em todo gosto
o que florir
à espera do sol

sexta-feira, junho 20, 2014

ser poesia para sobreviver ao poema

tem dias
/que os deuses me desculpem
eu não estou para a poesia
ela me é sem que eu saiba
ou queira
e até aí
essa minha não poesia
é também poesia
urgente
nessa causa única
de ser poesia

para sobreviver ao poema

terça-feira, junho 10, 2014

quarta-feira, junho 04, 2014

universo de mim

deixei de ser o centro
e passei a ser o todo
quando me conheci
/parte integrante
disso tudo aqui

terça-feira, junho 03, 2014

poema da desimportância

eu
que regurgitava ao impessoal
humana me vejo
em frente ao espelho
do dia
a mais impessoal criatura
para me agarrar à vida
de qualquer forma
sem grandes queixas matinais
me desimporta um pouco mais
a cada novo amanhecer
minha resistente desistência
de viver

quinta-feira, maio 29, 2014

predição consumada

tristeza que sibila
minha vida tem só
uma rotina:
morrer um pouco
a cada dia

domingo, maio 25, 2014

esquinas

não me dou por vencido
luto, corro,
escarro, encaro
não me dou por vencido
sempre tenho a mim

no encontro de cada esquina

sexta-feira, maio 23, 2014

poesia toda hora

para longos invernos
poesia para aquecer

para dias de solidão
poesia para acompanhar

para um grande amor
poesia para esquecer

terça-feira, maio 20, 2014

mundo cacofônico

mundano mundo
onde fica mesmo
o botão de mudo?


*

mudo mover
mudo silenciar
mudo transformar

o mundo num
vocábulo único

não precisa muito
só um pouco mais de coragem
para continuar

quinta-feira, maio 15, 2014

triste humanidade – para os dias insuportáveis que estamos fazendo

humanidade!

põe no cercadinho
da mediocridade
tua arrogância
teu desamor
teu desafeto
tua falta de compaixão
tua incapacidade de ser cidadão
/não seres humanos
nós é quem somos os verdadeiros
culpados, não eles!

humanidade!
cante uma canção de ninar
para tua miséria intelectual
deixe tudo
tudo de podre
da tua alma
dormir o sono eterno
no cercadinho da rua Cleveland
no cercadinho da rua Umbigoland

e que a miséria humana
não desperte nem evolua
nem prolifere nem nos maltrate
nunca mais

terça-feira, maio 13, 2014

domingo, maio 11, 2014

vestígios

gosto do que sangra
e do que faz sangrar

gosto do que queima
e do que faz queimar

gosto do que arde
e do que faz arder

gosto do que chora
e do que faz chorar

gosto do que ama
e do que faz amar

gosto do que atordoa
e do que faz atordoar

gosto do que vive
e do que me deixa viver

ao som de adriana calcanhotto - senhas

quarta-feira, maio 07, 2014

ostranenie

não decoro nada
nenhuma palavra
nem mesmo a mais bem dita
palavra leminski

não decoro poemas
então: a rima menos decorada
me invade o espanto diário
o assombro de me pegar
envolvida nas mesmas linhas
mas com o olhar diferente

não sei nada de cor
tudo me espanta
como o primeiro gole
do meu chá preferido

a cada novo gole
nova sensação me aquece
me adoça o paladar
/como é gostoso
esquecer para depois lembrar!

não decoro nada
nada sei de cor
estou na eterna descoberta de viver

cada dia um novo espanto
me beija a boca com novo gosto