Quem sou eu

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- O que escrevo? Não sei. Só sei que minha alma grita e eu já não posso mais abafar nem conter essa ânsia.

domingo, agosto 08, 2010

Meditação

As noites são escuras para todos.
Não há quem supere seus medos em noites como essas.
O pranto, tanto faz o seu motivo, é substancial.
Reflete o passado, que de distante, nunca existiu.

Curva-te para essa mulher, que assim como tu, busca ser alguém.
Um alguém que não seja ela, assim, tão oca e íngreme.
Íngreme como a escalada daquela montanha na manhã de domingo,
trabalhosa por suas imperfeições.
Buscas ser, decerto, alguém e esse alguém precisa ser distante de si.

Uma barra de ferro pendida no ar é mais valente frente a sua própria dor – pressupões.
Mas o poço está coberto. As janelas estão fechadas.
Há quem diga que o telefone também está cortado.
Ele, do amor ao ódio e, por fim, a aceitação,
também te busca no silêncio das noites
enquanto estás parada em frente a parede rosa, que agora, bate junto ao peito.

O zelo dessa dor é tão confuso quanto ameno.
A solidão que permeia por essa noite também é minha.
Sou solícita, complacente a dor que te aflige e
que tampouco é minha.

Substancial e desigual ela atinge as manhãs.
Rompe com o silêncio de pântano,
rompe com a liberdade em escala. 
Agora, livre, podes ecoar esse teu canto melódico e sombrio,
que pousa em mim como um alento - como um filho a quem dou meu seio farto.

Uma cumplicidade sigilosa, secreta de duas almas que estão de mãos dadas,
e onde quer que estejam cantam intensamente
a dor que as acompanha e as une.
Tornando a imagem refletida no espelho: uma só.
Brumosa, vaga, alheia, sem forma. Mas uma só.

O lago que és reflete a imagem do que fostes:
plácida a traições, fria e subversiva quando tratado de ti mesma.
Ingênua, doce e triste.

Uma menina que perdera o sorriso fácil ainda quando moça.
Hoje, uma mulher tão ou mais forte
quanto aquela barra de ferro pendida no ar.
Ainda flutuas sob os oceanos puros
que a liberdade apressada te recompensou.
Flutuas leve e amistosa, tranquila e vagarosa nos rochedos do meu eu.

domingo, agosto 01, 2010

O último gole do filósofo

Não, não era o homem que queria ser. A intimidade sibilina com Aristóteles e sua Grécia Antiga teria feito em profusão esta carne opaca e sem pouco viço, de difícil diálogo amistoso e introspecção exagerada. Encontrava a cura para sua demasiada sapiência e dor em dois goles de cachaça. Dois atrás de mais dois e assim, durante uma noite inteira até o sol despertar, dois goles de pinga era o que ele dizia que havia bebido. O trem partiu sem que ele se despedisse, nem um aceno tímido de longe ele deu. Dois dedinhos, meu caro - ele pedia ao garçom magro e acinzentado que fitava o relógio de minuto em minuto aflito para estar em casa e tirar aquele cheiro de desgraça de seu corpo. Mais dois dedinhos aqui, meu fi... - soluço. Ezequiel era o nome do garçom, mas os frequentadores daquele bar fétido não faziam questão de saber. Queriam ser servidos. E o serviço tinha de ser rápido, igualmente aos seus lúcidos conhecimentos sobre ética e metafísica.

Aflitos em sua desgraça e descrença. Aflitos por não terem para aonde ir. Aflitos por não sentirem outra coisa a não ser essa: aflição sincrônica ao desconhecimento imbecil de suas próprias limitações. Uma mistura de pena de si mesmo com um bocado de pressa. Pressa de quê, exatamente, nunca ninguém soube. Nem eles mesmos, donos de suas próprias aflições agudas manuscritas em exaustivos ensaios acadêmicos. A legião acadêmica, composta por renomados e ilustres donos de uma oratória invejável, pontualmente batiam seu cartão naquele bar.

O trem partiu e, da estação, as despedidas eram mais frequentes do que os reencontros. Despedidas zangadas. Despedidas adormecidas no colo das mães. Despedidas agoniadas. Despedidas corrosivas. Despedaçadas, desprendidas. Aqueles dois dedinhos de pinga mais um dedinho de prosa com o acompanhante misterioso, que a própria física insiste em decodificar seu espectro e sua constituição de cargas elétricas magnetizadas, fizeram com que o último suspiro de adeus não fosse ouvido. Ouviu-se um choramingar baixinho e inconformado. Ouviu-se o som da mala fechando. Ouviu-se um gole de cachaça descendo e queimando a goela seca do moribundo de alma. Não se ouviu um adeus. Ouviu-se um último soluço etílico e um brinde à... Não se ouviu decerto. O copo deslizou de sua mão e o moribundo, cujo raciocínio era tão brilhante quanto de uma vaca, espatifou-se no balcão.

E o trem novamente deixou aquela estação. Um último adeus a Platão.

quinta-feira, julho 29, 2010

Prólogo da dor

Se, perder-se no infinito-eu fazia parte do plano,
contento-me com o que sou agora,
na posição em que cheguei,
e cruzo os braços sobre minha barriga – àquela de que outrora recebia,
frequentemente, a visita das borboletas –
na espera sem forças de outro alguém.

Mantenho os braços cruzados diante
da minha própria impessoalidade,
quem sabe passageira,
e recosto na cadeira o dorso curvado
por carregar sobre os ombros
o peso de um mundo que não é meu.
Mas que dói corrosivamente.

Aos poucos. Em prantos.
Eis então, aqui, a parte de mim
que te cabe saber.

sexta-feira, julho 02, 2010

A Deus eu peço


Se era para ser clara a noite
que despertava em zelo árduo
e significativo dos fados de inverno,
                          
que renasça em mim,
em novo acorde, um suspiro longo e macio
para que da aurora pudéssemos aproveitar
a nova chance de aqui se estar,
como antes, como quando, ao berrar dos galos da fazenda,
a parteira vinha comigo aos berros - eu querendo o teu colo quentinho –
e tu querendo ouvir minha respiração ao pé do ouvindo.

domingo, junho 20, 2010

A imitação da imitação da rosa

Sentada em posição de alerta, ereta como um trem que já partira. E da estação ninguém lhe acenava. Ninguém estendia o braço e balançava a mão num gesto de respeito, de dor, de saudade. Ninguém. O lenço branco fora jogado inutilmente pela janela do trem. Bailou por alguns instantes no ar e caiu lenta e suavemente ao chão. Aos pés de ninguém que ali estava e interessava. Ninguém pegou o lenço no desejo ímpeto de tê-la consigo. De ter, ainda que em um pedaço de pano, seu cheiro suave de manhã, sua pele macia e cuidada. Ninguém fora até a estação, ninguém acenou e jogou-lhe um beijo saído da palma da mão grossa cheirando a loção de barba.  A viagem era o passo mais impreciso e longo que ela dera depois do acontecido. A rosa, flor que lhe despertara a vontade de viver, estava guardada em um embrulho de seda, dentro de sua bolsa de mão. Não quisera deixá-la em sua antiga casa. Não quisera que ninguém não cuidasse de suas pétalas, nem sentisse seu doce perfume pela manhã. Quisera tê-la consigo igual a uma mãe quer ter sobre seu colo o filho recém tirado do ventre. Quisera protegê-la, cuidar de seus espinhos e assegurar-se de que teria água o suficiente para respirar.
Quisera fazer de si o cuidado que precisaria ter consigo depois do tapinha nas costas. Quisera ocultar as palavras nunca, desde então, pronunciadas, mas que na ânsia escondida de um desejo árduo de seguir em frente, precisavam ser ditas. Pronunciadas em uma conversa amistosa, uma conversa desprovida de sentido lógico. Palavra jogada no vento morno que entreva pela janela da sala e enchia a casa de uma tranquilidade imparcial, tímida e sem restrição. Jogada no desejo de que quem fosse seu ouvido a captasse, ingerisse mas não a saboreasse de primeira. Desejara que permanecesse um pouco em seu estômago, pesando como a feijoada do almoço daquele dia. Desejara ser tão intensa e desprovida de qualquer comodidade alheia que a fizesse sentir o gosto amargo da inveja passageira. Desprovida de medo. Do temor de ser apenas única e assim, mesmo que única, ser bela e esperançosa como aquela rosa. Uma simples mudança de sentido, de direção, de percepção fez com que ela sentisse que a mudança, tão fortemente desejada pela razão alheia, a tomasse de súbito; como um desejo enorme de uma sede absurdamente palpável no sertão de um canto qualquer.
Sertão. Era para lá que iria. Sentir a necessidade contida e impaciente de se ter nos lábios uma única gota de água. Sentir a necessidade de viver desesperadamente o brilho das horas matinais, de arrumar os cabelos sem temer que, fio por fio, despenque tapando-lhe a visão mais sensata e real que tivera. De sentar-se em um banco de praça sentindo o cheiro de grama molhada sem preocupar-se com os sapatos sujos da terra argilosa. Sentir o vento úmido que pronunciara mais uma noite de inundações. Inundando-se sem esperar o alerta vindo de um sorriso apreensivo, no desejo de reter toda sua intensidade presa em divagações tão suas... Tão únicas. Lembrar-se dos sorrisos e rir deles por saber que agora, mais do que nunca, se está bem. Estou, sincera e inteiramente, bem – aos gritos no sertão de areias finas qualquer. Correndo apressada; apressada por chegar a lugar algum, apressada soltando gritos que estiveram mudos naquele quarto de hospital. Soltando gritos na exatidão dos dias sem demora. Da noite que chega e não mais apavora. Do frio que sentiu sua mão do lado de fora da janela do trem. Do lenço branco jogado aos pés de ninguém. Única e tão complacente de sua existência significante para si, agora.

segunda-feira, maio 24, 2010

Mudanças

Certos estudiosos da língua dizem que as palavras existem para dar nome as coisas e torná-las reais. Caso eu não nomeie determinados acontecimentos isso levaria a crer que eles não existem, não é mesmo?

Deletando palavras do meu léxico.

sexta-feira, maio 21, 2010

Desengano

Com este olhar circunspecto, distante do que fora seu,
ele caminha apressado, riscando o chão encerado com os seus sapatos de solado de borracha. As mãos trêmulas deslizam pelos cabelos grisalhos, emaranhados pela confusão.
No canto da boca um risco de sangue, no braço flácido, as marcas das unhas – quebradas com tanta gana e violência – ainda estão frescas.
O sangue ainda está vivo, vermelho.
Escorrendo.

Passos trôpegos no lado de fora. Na sala de jantar, as janelas estão cerradas iguais ao punho de Suzano que violentara os olhos, o corpo, a alma de Amélia.
Estendida, despedaçada em cada canto da casa.
Na gaveta de roupas íntimas, na cozinha dentro dos armários, no feijão que permanecia dentro da panela de pressão.

Olhos esbugalhados fitavam o corpo avulso estirado. Avulsa!, bradava entre dentes trincados.
Correu até o quarto do casal. Revirou a bolsa da mulher e, misturado a contas de luz e de gás, tirou o envelope cheirando a perfume vagabundo. Vagabunda!, internalizou soando frio.
Com o lenço manchado de sangue, limpou a testa úmida marcada por grossas linhas de preocupação. Linhas da imoralidade...

Leu com acidez aquelas linhas escritas por Amélia, a qual enfrentou os falatórios dos amigos e sua própria (in)consciência: largou os filhos  e a estabilidade conjugal que lhe mantinha frívola. Largou a vida das regalias pretensiosas. Negou suas próprias convicções.

Suzano. Homem honesto, injustiçado pelas mazelas de uma vida interiorana...
Suzano. Honesto, pueril. Que vez e outra cercava-lhe de atitudes fraternas. Quase um pai! Uma menina, a pequena Amélia.

Avulsa, agora, estendida no chão da sala. Pescoço marcado das angústias e desconfianças. Olhos marcados dos murros, molhados de desamor.

Os passos lá de fora deram meia volta. Eram de Emannuel, o marido abandonado, covarde. Não tivera forças nem coragem de arrancar Amélia dos braços de Suzano. Vira tudo da janela dos fundos da cozinha que permanecera aberta. Não tivera coragem e aos soluços cambaleou para a casa.

Amélia estirada ao chão, agora, avulsa por inteiro.

quarta-feira, maio 19, 2010

Transbordar

Não penso, de todo modo, ter perdido as palavras, ter perdido minha criatividade. O acúmulo de ideias e impressões não resolutas faz com que o mar das emoções serenem - já que são inúmeras as perspectivas. Nesse instante, tudo que vem à tona não marca o papel timbrado. Palavras e criatividade e ideias, em perfeita sintonia apesar das ironias da maré baixa, mantêm-se afastadas, avistando de longe as sofreguidões dessa passagem, dessa rima mal elaborada. Afastadas estão e assim permanecerão até que estejam refeitas, reformuladas, repensadas. Porque tudo em mim precisa ser visto com atenção, precisa ser tocado com sutileza, precisa ser esculpido com emoção.

segunda-feira, abril 26, 2010

A espera de uma reconciliação

São seis horas da manhã e ainda estou acordada. Lá fora o dia está amanhecendo. Com um pouco de dificuldade, encoberto por nuvens carregadas, os primeiros raios de sol tentam iluminar o céu, que, nesta noite - quase manhã - está desacompanhado das estrelas.
Janelas no prédio ao lado fazem barulho. Olhos que se abrem com o mesmo desejo de permanecerem fechados não são meus. Os meus acompanham atentamente os passos no andar de cima. Hora o menino corre para tomar o seu leite, hora corre para não perder a condução. 
Os meus passos estão cansados. Prontos para mais um amanhecer na solidão de uma cama vazia, num quarto frio, acompanhada, apenas, por uma linha não preenchida. Por um nome que não posso marcar. Não é mais meu. Por dois passos que tentarei dar amanhã...
Porque o novo dia só começa, para mim, quando o outro termina com o fechar dos olhos meus. E, esse dia insone terá um pouco mais de duração. Até que meus olhos estejam cansados de tanto te esperar.

domingo, abril 11, 2010

Domingo no Sertão

Para alguns, domingo tem cheiro de preguiça, de um descanso exagerado. Para mim, domingo tem cheiro de saudade, de uma melancolia, que torcendo muito, só se arrasta até a próxima quinta-feira. Lembro-me de que na meninice o domingo era sempre o dia mais esperado na semana. A casa cheia, comida em excesso cozinhando no fogão à lenha, crianças correndo soltas pelos cantos da casa – meus nove irmãos -, vizinhas trocando receitas de fim de semana, o cheiro do feijão na panela de ferro e o cheiro do fumo misturado a uma colônia forte de menta que papai usava.
Domingo tem cheiro de bagunça, de risadas altas, de família reunida - de brigas. Mas em casa, na hora do almoço, papai rogava aos céus em silêncio uma prece que só ele sabia de cor, mamãe fechava os olhos, submissa, e compadecia-se sei lá bem com o quê. O silêncio era o nosso companheiro na hora das refeições. Seu Nicanor não permitia um ruído sequer, dizia que aquele momento deveria ser preservado, aproveitado e admirado em silêncio. Comida era sagrada lá na nossa choça. Podia faltar o que fosse, podíamos não ter mais velas nem pilha para ouvir no rádio as tragédias de nosso sofrido Sertão, mas papai não deixava que nos faltasse uma refeição que fosse. Mesa comprida ocupava praticamente todo o espaço da sala, e ali ficavam as comidas bem feitas, bem temperadas e cozidas por minha mãe, Sebastiana.
Domingo tem cheiro de feijoada, tem cheiro de silêncio, tem melancolia, tem saudades de minha terra querida.
            Depois do almoço os filhos mais velhos ajudavam a mãe com as louças, enquanto os outros se distraíam brincando na rede no lado de fora. Eu não ajudava nem brincava. Era a quinta filha, o quinto degrau dos irmãos. Não era velha o suficiente para lidar com a louça nem nova o bastante para brincar na rede. Sentava-me no degrau da porta e observava, mais a frente, meu velho Nicanor postado em sua cadeira de balanço com o olhar fixo não sei onde, as mãos cruzadas sobre o peito magro, porém forte, e no canto da boca o fumo apagado, seu enfeite, sua única regalia, sua única extravagância.
            Quando a cozinha já estava impecável, mamãe não descansava, contudo. Varria a frente da casa, aquele piso sem cor, gelado que cheio de areia a irritava. Papai fingia nem perceber sua inquietude, pigarreava a garganta e mais fixo ainda penetrava seu olhar passando a cerca, passando as árvores que ainda restavam, passando as nuvens, passando o horizonte.
            Domingo. Ah, os domingos de meu Sertão. Ainda sinto o cheiro do fumo molhado, do feijão cozinhando na panela de pressão, da lavanda de seu Nicanor, do silêncio. Oração sem pressa que nos conduzira durante tanto tempo a uma mesa farta, a um carinho sem apego nem afago mas sentido dentro de nossos corações. Ah, meu Sertão de tantas mazelas e sofreguidão. De tanta seca e insolação. De tanto cheiro de amor, cheiro de domingo de fé, cheiro da saudade de um tempo que nunca mais voltou. Ah, meu Sertão.

quinta-feira, abril 01, 2010

Um pedido

                                             (À ., que o passado não seja apenas uma sombra na qual te acomodes em apenas sobreviver à margem dela.)

Dizem que o tempo é o melhor dos remédios, mas em teus olhos, anuviados de mágoas passadas, é apenas a sombra daquilo que sobrou; daquilo que hoje faz parte de ti. Tão calejada, tão amarga. Tão azeda e tão segura de si!

O tempo te fez aprender na marra a respirar todos os dias, a embalar o teu filho e colocá-lo no berço sozinho, sozinha; com todo o peso do mundo nas costas... E é por causa do tempo que as sombras do que já se foi resolveram despertar das cinzas de um amor que se queimou. Tão sofrido!

“Desperte, Coragem!” - soou como uma gota de lágrima de que há muito lhe fora extirpada de tua alma.

Reascenda as chamas do amor e arranque de uma vez por todas essa armadura de que te vestes. Já não há mais motivos para fugir e fingir ser quem não és. A dor tomou conta do teu coração, bem o sei, mas ande! reaja! Contudo, antes de qualquer coisa: perdoe-se. A vida precisa de um recomeço, uma segunda chance, e o tempo de dor precisa ser deixado no que já se foi.

sábado, março 13, 2010

Testemunho no guardanapo de papel


Quero sentir – sempre. Qualquer que seja sensação. (Eu suplico por sentí-la.) Seja quando acordada ou quando dormindo. Não me importa. Não importa se faça doer e chorar ou se faça sorrir e ainda sim chorar. Quero sentir. Sentir. Sentir. Sentir. Engulo três doses de uma vez só. Sem dó. 

É isso que me mantém viva. É o sentimento que me adormece, que me sacode, e ainda me faz pousar quando nas nuvens dos pensamentos estou burlando meu próprio sentir.
Quero sentir durante as vinte e quatro horas dos dias. (E ponto final.) Respiro aliviada: estou, de fato, viva.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Uma conversa

O que dizer quando o coração absurdamente aos pulos dentro de si está?
- Te amo!- resmungou-lhe baixinho.

E um mundo novo de sensações intermináveis e inigualáveis floriu dentro dela. Que sentimento então (pergunto eu), era esse tão pulsante, tão vibrante que fez brotar arrepios na pele dourada?

- Isso é paz. - Deus cochichou para mim, num beijar da brisa fresca sob um céu querendo se estrelar, ao lado de um amor inconfundível - homérico - querendo se achegar. Ai, o amor. Quem dera fosse meu - e inconformado escondi-me novamente atrás da mais velha árvore daquele parque mal iluminado.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Depois de tantos anos novamente me vejo deitada sobre o mesmo sofá velho e encardido e sobre a barriga, que sobe e desce acompanhando lentamente a respiração descansada, um livro fechado de páginas amarelas. Amarelas iguais aos últimos sorrisos dados por mim. E sabe-se lá o porquê disso, mas a sensação de solidão volta a embargar a voz e a preencher o coração de um vazio latejante, pulsante e acomodado. Acomodação esta que era costumeira, amiga e despretensiosa, mas que hoje está ardendo tanto aqui dentro como a chama da vela que horas parece se definhar ao soprar do vento, mas que de repente se acende brutal e intensamente, voltando a queimar e arder tudo outra vez. Sem piedade, sem apego, fatalmente, porém.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Olhos de (vi)ver

        Parece sempre estar à procura de olhares alheios. Caminha lentamente pelo centro da cidade, onde a peregrinação é mais entusiasmada, e de rosto em rosto fixa-se em olhares dispersos, outros timidamente alegres, e na grande maioria, tantos mais alheios em suas dores, estressados, desanimados por ainda enxergar. O que seria dessas pessoas se a visão lhes fosse roubadas? Sabem elas como é terrível (ou quem sabe, fascinante, certas horas) não poder enxergar? De maneira indiscreta, continua a dar seus passos lentos, continua a se mostrar para os transeuntes, mas eles estão cansados demais para perceberem sua presença.
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Pingos distantes e luminosos começam a povoar os céus daquela linda capital brasileira. Parece que ninguém dorme nem descansa. Ninguém nota as flores nem as estrelas nem mesmo seu próprio rosto amargurado refletido no espelho da noite. As ruas continuam sôfregas de pés habilidosos, que mecanicamente, desviam-se dos muitos buracos que há nas calçadas e do trânsito agitado de bicicletas e motocicletas que aceleram enfurecidas.
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No primeiro banco vazio que encontra senta-se desacorçoada. Sente que suas idas ao centro da grande capital parecem não ter mais sentido algum. As pessoas andam atordoadas de contas à pagar, de compromissos extras, os mesmos que lhes tiram do seio de sua família em meio à noite incansável e barulhenta. Atira-se para trás e leva as mãos ao rosto já banhado em lágrimas. Chora compulsivamente. Sente doer uma dor que não é sua, mas ao mesmo tempo lhe é tão familiar...
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Lembrou-se dos tempos de meninice, quando o pai chegava em casa – visivelmente esgotado de tanto trabalhar; aquelas manchas pretas embaixo dos olhos nos remetia a isso -  trazendo em uma das mãos flores brancas para mamãe e uma lembrancinha para ela, por vezes livros de poesia e algum punhado de balas de goma.  Apesar de seus olhos carimbados do serviço cansativo que sustentava sua família, sempre sorria quando as via, sempre as apertava, mamãe e ela, forte em seu peito. Imagino eu, ela quase amassar o coração de seu distinto pai de tão apertado que eles abraçavam-se.
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Lembrando-se dessa cena, mais difícil foi para conter as lágrimas que escapuliam para fora de seu rosto, caindo sobre o peito infestado de jovens sardas. Alguns segundos depois sentiu um leve toque em sua mão direita. Trancou a respiração e prontamente engoliu o choro. Desencostou o dedo mínimo do outro a fim de espiar o dono daquela mão. Uma única certeza tivera: era a mão de um homem, aquela loção masculina lhe era familiar! Pela frestinha de seu fino e comprido dedo, avistou um homem trajando um terno cinza, impecavelmente engomado. Afastou as mãos do rosto, que imediatamente tocaram seu coração, como que querendo segurá-lo para não fugir de dentro dela; a mão e aquele cheiro de loção pós-barba lhe eram familiar, ela sabia disso. Aquela fragrância de infância impregnou sua memória recheada de boas recordações de cantigas de roda. Esfregou os olhos para ter certeza e mesmo assim, parecendo delirar de febre, seu rosto não estava febril.
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Era o seu pai. Aquele cheiro, aquela mão bem cuidada e aquele terno bem frisado eram de seu pai. Mas ele partira há tanto tempo! Ela esteve lá no enterro dele – a contragosto de sua mãe, que queria preserva-lhe a imagem de seu pai ainda vivo, “vendendo” saúde como diriam, radiante. Esteve sim, em seu enterro. Até mesmo jogara Amaro, seu ursinho de pelúcia predileto, dentro do caixão. Quem seria então aquele homem que estava parado com um sorriso fraterno em sua frente? De quem seriam aqueles olhos tão carregados de esperança, mas que se deixou manchar com as incertezas e dores que a vida lhe trouxe?
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Era ele, disso, só teve absoluta certeza quando, detrás de suas costas o ursinho Amaro saiu, impecável como antes, parecendo ainda recém tirado da prateleira da loja de brinquedos daquele ano de 1959.  Não empalideceu, seria essa a minha reação ao ver um fantasma tão próximo. Agarrou da cintura de seu pai e apertou forte beijando-lhe a barriga, os braços, as mãos, até que ele a pegou no colo dando a oportunidade para ela enfim, poder beijar-lhe a face recém barbeada.
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Ambos permaneciam mudos, fitando um os olhos do outro. Contando com doçura caída em lágrimas toda a saudade que sentiram estando longe, assim. Abraçavam-se com ternura angelical, quase pude ouvir o som das cordas firmes de uma velha harpa celestial.
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          Encostando os pés no chão, a não mais pequenina criança, de mãos dadas com o seu amoroso pai caminharam em direção àquele aglomerado de gente, os quais apressados mal notaram aquela menina pálida, de cabelos esvoaçantes a perambular com o braço esticado ao vazio, como se de mãos dadas estivesse. Ninguém a notou sorrir ao contemplar os olhos meigos de seu falecido pai. Ninguém percebeu quando ela, radiante e lúcida, desapareceu no meio daquela luz forte e branca vinda não sei de onde. Ninguém a ouviu dizer um último adeus e sorrir. Nem mesmo eu lhe vi passar. -->

domingo, dezembro 27, 2009

O voo da liberdade

Não sabia ao certo como reagir. Pensava que a parte que lhe cabia havia sido cumprida. Pensa, pensava e pensava. Submersa em seus pensamentos, fitando a paisagem em sua volta coberta de gelo, respirou profunda e lentamente. Tratou de cuspir o nó na garganta que lhe apertava até a alma. Cuspiu palavras desconexas, frases imaturas e profanas. Parecia não pensar. Quem não a conhecesse poderia ter certeza de que era surda, nem sempre muda. Mas portadora de uma surdez friamente calculada. Uma frieza surda. Uma surdez fria. Por pura birra. Por puro ódio sabe-se lá do quê e por quê.

Sentada na varanda da casa, os pássaros sobre os galhos das árvores branquinhas de neve, pensava no que seria feito dela desse dia em diante. Fitava os galhos, queria ser os pássaros que repousavam suas penas molhadas sobre aqueles galhos frios. Desejava ter asas, desejava voar e conhecer a vida de todos de uma visão mais distante, de cima. Despreocupada e egoísta como os demais de sua casa.

Tomada por um impulso incontrolável, subiu as escadas que a levariam para o quarto de Susan, a criada latina de sotaque frouxo. Abriu a porta com violência e correu para a janela que ficava sobre a cama impecável, perfeitamente esticada por Susan. Primeiro firmou o pé esquerdo sobre a lajota cor-de-sangue e, quase que num pulo empinou o peito para frente e logo teve pé direito fazendo companhia ao outro que estava naquele peitoril estreito da janela. Tirou a fita amarela que estava amarrada em seu cabelo desbotado e fez um laço em volta do pescoço. Parecia sorrir. Seus olhos brilhavam sangue. Sua garganta ardia como o álcool jogado nas suas feridas em carne viva. Queria gritar – e não era de dor, parecia até não sentir mais dor. Queria voar. Queria sonhar mesmo sem saber exatamente o que aquilo significava.

Parecendo fazer um passo de balé girou a fita com violência, arqueou o corpo para fora da janela e soltou os pés arroxeados do frio. Branca como a neve. Branca de tanto tentar esquecer o que seria feito dela daquele dia em diante... Pensou pela última vez e com uma risada derradeira pronunciou o que muito lutara para conseguir: AGORA SOU LIVRE!

E a fita, apesar de ser um simples enfeite em seus cabelos desbotados, segurou-lhe com força até que alguém de casa, ou quem sabe a própria dona do quarto, Susan, dessem falta dela. Mas parecia ninguém se importar. Ninguém lhe notar.

Novamente iniciou-se o ciclo e os pássaros continuam balançando-se sobre os mesmos galhos mais uma vez cobertos de neve. De uma outra neve. E o desejo de antes, essa liberdade, esse querer voar, parece insignificante diante da bela paisagem invernia lá do outro lado da janela.


Ninguém sentiu sua falta, e Susan, sequer, existira algum dia. Mas ela, amarrada pelo magro pescoço sem vida com sua fita de veludo amarela, sorriu, parecendo não sentir dor. E finalmente, bateu suas asas pálidas e voou terrivelmente sóbria. Terrivelmente lúcida nesse lugar frio e egoísta. E voou sem nem olhar para trás. Sumindo por detrás da nuvem negra passageira.