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Quem sou eu
- Fabíola Weykamp.
- - O que escrevo? Não sei. Só sei que minha alma grita e eu já não posso mais abafar nem conter essa ânsia.
terça-feira, agosto 25, 2015
quarta-feira, maio 20, 2015
na fossa com a maysa
na fossa
a água parada
de poço que sou
comemora a vinda
do meu corpo que desabou
do alto barranco do amor
sem resposta sem soluço
sem cor nem pulso
convulso
domingo, maio 17, 2015
metade arrancada de mim
eu tento suportar
durante o dia
mas o sonho me acorda
para eu chorar outra vez
tem sido assim essa semana
vai ser assim para sempre
ao som de zizi possi e chico buarque: pedaço de mim
quinta-feira, abril 30, 2015
quem sou eu para te impedir o mundo
mas eu só
queria
que tu
olhasses
para mim, um
pouco,
além de ti
e entendesses
que aqui também
bate um desejo
terça-feira, abril 28, 2015
eu te sei
sensação amparo
o amor subjaz
nessa tua languidez materna
entreaberta que me
examina complacente a testa e o pé
e o coração enquanto eu
te sorrio sem perceber
//o amor tudo sabe tudo vê
terça-feira, abril 21, 2015
sintoma
amo escancaradamente
no plural
o amor é um sintoma
de quem está vivo
diagnóstico de quem vive
plenamente
domingo, abril 19, 2015
quinta-feira, abril 16, 2015
ser livre
toda dor
se compromete
com a verdade
de ser livre
deixa doer
com indicação da poeta alice pereira, para ler ouvindo lu horta: todo mundo quer amor
se compromete
com a verdade
de ser livre
deixa doer
com indicação da poeta alice pereira, para ler ouvindo lu horta: todo mundo quer amor
segunda-feira, abril 13, 2015
isto também é dizer amor
quando ela
fala
é como se um
anjo
pousasse-lhe
na língua
⊷ ⊶
cisco sigo
sismo e curo
sigo só: medito
⊷ ⊶
essa faca
afiada desafia
minha poesia desafinada
⊷ ⊶
no princípio no precipício
era o fim o começo
sexta-feira, abril 10, 2015
ame-o e deixe-o
tenho em mim
o grito de liberdade
solto em meu sorriso
dou o direito
do meu amor
ser livre para amar
/o teu também
para ouvir doces bárbaros: o seu amor
quinta-feira, abril 09, 2015
não-convencional
minha preocupação literária
não é com rotulações
definições em estantes
mercado editorial
meu compromisso
é com o ser humano
que possa vir a ler isto
meu compromisso
também é comigo
eu não sei fazer outra coisa
se não criar laços vínculos
me comprometer com o outro
de uma forma não-convencional
sem visitações nem telefonemas
meu comprometimento é espiritual
de toda forma e gesto – palavra
meu compromisso é amar
amar o outro que respira
a literatura me fez amar
os poemas os poetas
o ser humano e a vida
a poesia me fez amar
a filosofia a medicina
a morte e outra vez: a vida
a poesia me fez amar
e é amor que faço aqui
quando ocupo linhas
com palavras que pego para mim
meu compromisso é
com tua essência
mais profunda do que a genética
e te amo porque existes
terça-feira, abril 07, 2015
tortura lírica numa madrugada de abril repleta de mosquito grilo e amor
avesso isso exo
expresso
aviso aquilo nego
enxergo
vaso complico
apego disperso
asco asco asco
asco asco
vasto mim submerso
uma sacola de sentimentos soltos
recortados de revistas jornais
tudo o que meu olhar penetrar
reviro do avesso
cada aperto
eu me converto
num poema inanimado
enterrado corpo inteiro
um salto um berro me ajoelho
o eco absoluto num deserto
eu grão de sal
um grão de areia de sal
um grão de sal de areia
único na imensidão
esquecida de ícaro
imerso no aterro
desnivelado da minha
tortura lírica
convoco prismas budas e caducos xucros
iansãs maçãs e xamãs
tudo que reza feito imãs
adoço corações amargos
com pitadas de sarcasmos
comecei comigo
acabo contigo
morro conosco
nasço enquanto
nosso tempo, poetinha:
é sempre
segunda-feira, abril 06, 2015
bashô me disse
ássana
esse poema
escrito em sânscrito
fala
de dor e encanto
ássana
em sânscrito
até eu viro santo
ássana
conhecedor do meu dilema
sou mestre numa
rua em diadema
ássana
ouço vou
digo sou:
norte de mim
ássana
incenso cheira
na quadratura mutável
que em mim anseia
ássana
medito dentro
fora de mim
amanheço
domingo, abril 05, 2015
to relive poesia
VIVER
IVER
VER
ER
REVIVER
EVIVER
VIVER
IVER
VER
ER
R
inventar
a vida
quantas
vezes
preciso
for
poesia
quarta-feira, abril 01, 2015
uma mulher não cospe catarro na pia do banheiro
uma mulher não pode
comentar sobre futebol
que vem 25 solicitações de amizade
masculinas no facebook como se ela fosse
motivo exclusivo de exposição
na vitrine para um bando
de abobalhado observar e julgar
suas preferências futebolísticas
colocando-a à prova
de tempo em tempo
para assinar o atestado de
que essa mulher
essa mulherzinha
não entende nada de futebol
porque uma mulher não pode
angélica freitas
sabe
uma mulher não pode e não deve
caminhar na mesma calçada
em que o homem caminha
uma mulher não pode
pisar no mesmo gramado
em que o homem pisa e cospe e coça o saco
uma mulher não pode
se ela for machorra aí
ela tem o atestado
a prova do crime e o sapato
mas também ela está
em outra categoria
não é mulher
porque mulher não pode
deitar com outra mulher
gostar de futebol
quiçá comentar sobre
a lésbica não é mulher
é outra outro tipo
uma mulher não pode
angélica freitas
bem sabe
uma mulher não pode nem deve
se faz é suja porca e sapatão
uma mulher que se respeite
não fala sobre futebol
só alcança a cerveja para quem entende
e vai dormir cheirosinha mudinha
sem coçar a boceta
sem soltar a calcinha apertadinha
sem cuspir o catarro na pia do banheiro
nem pensar não não não
uma mulher não pode
uma mulher não pode
terça-feira, março 31, 2015
incômodo cômodo
“e o que me resta
é só um gemido”
João Ricardo e Paulinho Mendonça
deitado sobre
o
sofá do
conformismo
assistindo à
vida
passar
na tevê
outro dia
mais
mais ninguém
/adiantando relógio
tu também?
domingo, março 29, 2015
um MARço de saudade
a morte
sempre nos rouba
de nós
⊷
⊶
cada um
com seu luto
sua luta diária
⊷ ⊶
em horinhas da tua ausência
meu coração é um oceano de dor
⊷ ⊶
minha dor pacífica
não cabe no oceano
⊷
⊶
coração sangra
a falta tua
nesse espaço
imensamente vazio
onde deixastes marcas
do carinho teu
⊷ ⊶
toda noite
eu sorrio
para a lua
toda noite
o silêncio me desperta
uma lembrança tua
o amor: agiganta-se
debaixo das cobertas
de estrelas sonhos
saudades sem pressa
sexta-feira, março 27, 2015
revoltos fios de areia negra
teus cabelos negros
na areia da praia
revoltos fios de areia negra
dançam no mar
coberto de lua
as ondas do teu corpo
o nó de marinheiro
da tua respiração
amar o amor
amar o amor
amar o amor
teu diafragma revela
o arquétipo das semideusas
desfilam nuas
na areia gelada da praia
nuas coexistem com o mar
amar o amor
amar o amor
amar o amor
iemanjá revela
tens de mim a imensidão do mar
vasta solidão
marinheiro só
amar o amor
amar o amor
amar o amor
eu nos revelo
quinta-feira, março 26, 2015
ginástica cerebral (ou sinapses relapsas capricham)
sinapses relapsas
capricham esse poema
empobrecido (mudo)
tudo escrito
no mais profundo
inconsciente
atento ateia fogo
em cusparadas
de verdades silábicas
contundentes rimas ricas
roucas loucas e frouxas
tudo dito
no que parece não dizer
léxicos grafemas fonemas
a língua um leque de possibilidades
guimarães na boca do povo
tudo dito
bendita seja
a palavra bem dita
que não digo
quarta-feira, março 25, 2015
ideolinski
b
e
n
d
i
t
a
a
palavra dita
nada esconde
nem dor nem alegria
b
e
n
d
i
t
a
a
palavra dita
tudo agita
coração e rebeldia
espinha de peixe
de que
adianta
a resposta já
sabida
se a espinha
de peixe
fere tanto
quanto
o beijo da
sereia maldita?
terça-feira, março 24, 2015
liturgia-idiossincrática-literária
o poema emenda o edema
a poesia livra-me da azia
de estar só
boa parte da
vida
segunda-feira, março 23, 2015
kiru
(para bashô e leminski)
morte: serena alegria
a folha amarela diante de
seu renascimento sobre a terra
domingo, março 22, 2015
haikai de outono
borboleta branca
bateu na janela do quarto
seria sorte? descuido?
/amanheceram folhas secas na minha cama
⊷ ⊶
para cada estação: haikai
para cada sensação: haikai
para cada vida: poesia
sexta-feira, março 20, 2015
qualquer dia desses, maria vai chorar rosas
qualquer dia desses
vou tocar numa banda
em plena praça sete
vou jurar que
todas as rimas
causam estranhamento
todas as primas pedem
por um pouco de
rebeldia
e vou doar minha
poesia
para uma igreja
no meio do nada
e nesse dia
maria vai chorar
rosas
e a cidade inteira
de mãos dadas
vai fazer festa
em volta de uma
fogueira
cantando e dançando amor
para qualquer um
que não se perceba
nem mesmo diante do
espelho
terça-feira, março 17, 2015
sobre pedras e amor federal generalizado
subi na vida
sou maior que dilma
e deixo obama no chinelo
estou ao lado de deus
estou seguindo carreira
num papel
não como escritor
sou orgânico*
fui promovido com méritos
sou lei de uma constituição
sou essencial para qualquer nação
sou regra categórica
acima da verdade
ao lado de deus
sou orgânico
sou regra sem exceção
minha lei é o A M O R
e tenho dito
* Nota do Autor: Segundo Dicionário
Houaiss. Rubrica: termo jurídico. Que preside à organização de um governo
(diz-se de uma lei constitucional ou essencial).
sábado, março 14, 2015
madrugada indômita
sou a madrugada
que revela suas dores
mais íntimas
enquanto a cabeça
embala seus tormentos diurnos
no travesseiro noturno
dos lamentos
sou a madrugada
escura, insone
terrivelmente íntima
mergulho debaixo de lençóis
invado sonhos
desconstruo narrativas
manipulo emoções
agito tuas cobertas
e em sobressaltos
relembro desassossegos esquecidos
sou a madrugada
friamente acolhedora
penetrante, irrefreável
incurável
fala-me de sol e solidão e em tudo canta-me o amor
(para a baiana Alice Pereira)
clave de sol
linda
salta da tua
SOLidão
e canta-me o amor
em dor maior
sexta-feira, março 13, 2015
em tempos de crise, a literatura salva
meu movimento
é literário
minha manifestação
é puramente poética
estou de viagem marcada para o sertão da minha solidão
a
saudade é tanta
que eu
ainda nem desfiz as malas
vai fazer um mês agora domingo
a
bagagem continua pronta
intacta
na sala perto-da-porta
para o
caso de eu poder voltar
porque
dessa vez
a imagem no espelho revela
parece
que fui eu
quem
realmente foi embora
me
deixando para trás
outra vez
quinta-feira, março 12, 2015
papoulas, gás e plath
agora
enquanto você sacode
esse poema sujo
para que nada presta
tem alguém
com a cabeça
dentro do forno
intoxicando o mal-sentir
daquilo que não passa
nem com a poesia anestésica de plath
terça-feira, março 10, 2015
resenhas da solidão – dor inútil
discurso ausente
o isso estagnado
minha poesia
canto livre
e nada: mesma coisa
não quebra muros
não interrompe guerras
não salva ninguém
nem a mim
inútil
tão inútil
quanto a palavra gravada
numa folha branca
mofando dentro de uma gaveta
na úmida e vazia satolep
segunda-feira, março 09, 2015
caminho veríssimo
(para o meu grande e único amor)
que minhas lágrimas não me impeçam de
desvendar e contemplar o nascer do poema
a cada novo dia na estreita e mal iluminada satolep
que deixastes para eu tomar conta
enquanto não te demoras abraçando
[esse mundo
todo teu
e que sob às margens do teu guaíba
quintana passarinho abençoe e cante o nosso amor
para quem tem medo de correr riscos
[e ser feliz ainda hoje
sábado, março 07, 2015
esse é o trem que me leva para a fonética praga
(para
giovana gonçalves)
foi
como se o peso
sobre os ombros
no ar rarefeito
ficasse
leve como pena
pena de ave
que voa alto
perto longe rasante
fiquei
solta no ar
as pernas pêndulo
o corpo livre
a vida testemunha
do meu riso
alívio prego enferrujado
marteladas te quero
não hoje: agora
sob o mesmo
verbo
código fonte: mira
a minha sina
de ser aqui
para estar ali
no que dizes
enquanto eu sinto
no que digo
enquanto tu sentes
poema
que automático compõe
estradas: labirínticas rimas
para o amor
sǫu
termino a estrofe
com tua cartada
na manga doce
da blusa longa
que cobre braços
liberta teus abraços
no meu corpo
envolto de língua
acesa no dicionário
quente: místico transcende
tua papila gustativa
delirante sobre vogais
acentos consoantes danças
gal carnes ramil
no mp3 ocupa
teus ouvidos lindos
escutam: tudo ama
baixinho composto vermelho
entrada subterrânea: coração
minha vida impregnada
língua: linguista: linguística:
é esse trem
que me leva
para a fonética
praga?
formalismo
russo costura círculo
jakobson leminski gonçalves
na mesma terra
de fernando pessoa
que pessoa pessoa
humana revela: emana
amor palavra devoção
tua linguística mística
de volta volta
volto volto volto
vou
como se o peso
sobre os ombros
no ar rarefeito
leve me levasse
para a casa
de volta volto
quarta-feira, março 04, 2015
a noite amanheceu em meu coração
(para o meu grande e único amor)
não duvido
do nosso amor
para ter certeza de
que tens o mundo
na palma das tuas mãos
/sei porque sinto
o infinito é teu e,
ainda sim, eu sou tua
toda tua nesse mundo
que será para sempre: nosso
ao som de nei lisboa - por aí
segunda-feira, março 02, 2015
na estrada, a saída é sempre chegada de alguém
coração-inquieto, responda:
quando aconteceremos
outra vez depois
do para sempre
que mentimos para nós
com honesta franqueza?
sábado, fevereiro 28, 2015
segunda-feira, fevereiro 23, 2015
praticando zazen enquanto caminho no centro de satolep
por que insisto
em desviar o olhar de ti
que me espelha?
serei de fato essa mulher
tão infeliz
comigo mesma
que não sou capaz de suportar
enxergar-me em ti
quando de frente vens a mim?
serei eu essa dor
fugindo dos teus olhos
em meio a escandalosa
chuva de verão
que n'outro dia inundou
a cidade inteira?
universo,
perdoe minha falta de brio
quinta-feira, fevereiro 19, 2015
vestígios no escuro sobre o poema anímico
sou traça
sem casulo
devorando os
papéis
com o teu
nome
nos poemas
que ainda nem
fiz
sou traça
trago voo
sem rumo
me transformo
sumo
no mar e pouso
no escuro
fundo de mim
existo
quarta-feira, fevereiro 18, 2015
sambinha da quarta-feira de cinzas
o que será
o que será
o que foi me acontecer?
por que será
por que será
que eu só penso em você?
terça-feira, fevereiro 17, 2015
empoeirado na estante da tua sala de jantar
poeira é poesia
que o vento
leva
cada grão de
areia
cada ácaro
que dança
livre acima
da tua cabeça
é um poema de
amor
escrito sob o
jugo
leve dos santos
empoeirados na
estante
da tua sala
de jantar
manifestação
da vida é acordar
todo dia e me
empoeirar de mim
com o júbilo
de me
encostar na
tua roupa
penetrar no
teu ouvido
e sujar todo
o teu coração
com a
palavra-lembrança
do meu amor
que bem sabe esperar
quinta-feira, fevereiro 12, 2015
morfologia de verão
desabafar é sempre bom
sempre faz bem
é urgente
e preciso
ainda mais nesses dias
de calor intenso
sempre faz bem
é urgente
e preciso
ainda mais nesses dias
de calor intenso
quarta-feira, fevereiro 11, 2015
em tempos de seca, o amor nos inunda
com que mãos
com quantas mãos
segurar o amor
quando amor transborda?
com quantas mãos
segurar o amor
quando amor transborda?
terça-feira, fevereiro 10, 2015
ela, elos de gabriela
ela que é um céu
e seus constantes milagres
as cores de netuno
o arco-íris depois
da chuva de verão
ela que é os ventos
que sopram do norte
e regem a aurora boreal
pra lá de nós
ela que magnetiza
toda força sideral
e das lágrimas de saturno
faz encher os vales e os rios
faz da seca solo fértil
faz da morte: vida despertar
ela que tinge em tons quentes
a tristeza e violência humana
transforma chuva de balas perdidas
em sementes de rosas
que floreiam sacadas
e salas de aulas
ela que é o mais puro
amor genuíno
ela que é gabriela
ninguém ousaria
não querê-la
tal como ela
sábado, fevereiro 07, 2015
o peso dos teus sapatos
na madrugada
a dor faz serão
rasteja baixinho
fazendo tremer paredes
derrubar cobertas no chão
e despertar alarmes
o soluço da dor
quebra em ondas do mar
a correnteza – submissa e complacente –
devolve
o que nunca foi embora
na madrugada
um grão de areia
na cama
lembra a falta de sorte
de ter perdido
o pôr do sol na praia
e de caminhar sobre a areia
de meias e sapatos quentes
abarrotados de pressa e silêncio
sexta-feira, fevereiro 06, 2015
zona de confronto
pretobras
no bras?
não se vê
preto só de longe
que é pra embelezar o bras
que a silvia pilz vê
estrábica que é, coitada
mas o SUS tem piedade de ti,
calma!, aguarde na fila
o próximo ano chegar
a partir da existência
dessa senhora com carência afetiva
para ouvir itamar assumpção - pretobrás
quarta-feira, fevereiro 04, 2015
madrepérola
todo vendaval
revela o homem-nu
santo e demônio
por detrás da cortina
eles que habitam nossa pele
demasiadamente frágil
com marcas de
todo gozo e mácula
no calvário da escrita profanadora
debaixo das saias dos sacerdotes brancos
a fé decorada
regozija
nas contas
de madrepérola abençoadas
filho pródigo
(para alice pereira)
abrace
as misérias
do teu cotidiano
como quem
abraça a um filho
perdido e temeroso
porém pródigo
que à casa sempre torna
à procura de alento
no retiro distante da
poesia reconciliadora
terça-feira, fevereiro 03, 2015
sobre amar a quem, olhando sempre além
tem horas
em que o braço fica leve
o peito receptivo
à vontade de amar
e fazer amor em quem
o olho primeiro – e segundo
parar
tem horas
em que os braços
enlaçam o corpo mental
físico e espiritual do outro
e é na horinha transcendental
desses três corpos num só abraço
que o amor se encaixa
e reside
na eternidade
atemporal do bem-amar
por amar e amar com demora
segunda-feira, fevereiro 02, 2015
no amor, teu amor
(para o meu
único amor)
no amor
há quem perca
o sentido a
razão a eloquência
tu, pelo
contrário,
me demoves a
impaciência
me comoves à
coerência
justificas
minha existência
tornas-me em um ser menos
vadio
não me cegas
os passos
tu, meu
amor-transcendental
me acodes
e me sacodes
por inteira
nunca estive
tão viva
desde a
chegada
de tua
genuína humanidade
estou a salva
curada de
qualquer desistência
nesta e em
qualquer
outra vida
sábado, janeiro 31, 2015
navalha do desprezo
engolir a
navalha do barbeiro
que de corte
em corte afia
o fio daquela
lâmina
ora envolta
de uma toalha
de linho
branco e macio
ora cortando
o mal pela raiz
engolir a
navalha do barbeiro
a seco mesmo
deixar tomar
a reta
arranhando e
rasgando
e sangrando a
garganta
depois jogar
por cima
beber querosene
e riscar
um fósforo
goela abaixo
deixando o
produto agir
e beber de
novo
até queimar
até não
restar mais
monossílaba
de horror
te juro: doerá
mas doerá bem
menos
do que o teu habitual
desprezo
para contigo
mesmo
sexta-feira, janeiro 30, 2015
repeat
(para gal costa)
quando as horas
de um dia
me doem mais
e ultrapassam as horas
em que só me encontram
debaixo das cobertas
nuvem negra toca –
com a incidência
das ondas sonoras da minha pulsação
deito minha dor sobre aqueles
quatro minutos e trinta segundos
vezes dor
elevada à quinta potência
de pura melancolia acompanhada
nossas dores se confundem
ela canta e eu me retorço
com a dor que é melódica
em tons de vermelho
que só eu sei
excelência dessa vida: é doer-se
e continuar vivendo
apesar de
cada nuvem negra
que se forma em meu céu
ao som de gal costa – nuvem negra
quarta-feira, janeiro 28, 2015
catástase poética
dentre todas as solidões
com que me parisses
a poesia foi a melhor delas
com sombras
mas sem dúvidas
terça-feira, janeiro 27, 2015
sábado, janeiro 24, 2015
o sorriso da lua
a brevidade do voo
tem o pouso noturno
nos cabelos de luz
dessa noite
a lua minguante
sorri enquanto sonha
de frente para a tua janela
quinta-feira, janeiro 22, 2015
o poeta em constante queda livre
o amor é uma janela
na qual só os poetas
têm coragem de
se debruçar
correndo o risco
da queda livre
⊷ ⊶
o suicídio do poeta
é amar em demasia
quarta-feira, janeiro 21, 2015
o proprietário da nova senzala
a raça
arrasa
carne vendida desde
antes da fome
hoje
apetece ao olhar
desejo íntimo
não impugna a podridão humana
quer cheirar, lamber, comer
açoitar e escravizar
a carne negra
a mulher preta
coberta de purpurina e tinta
samba na tevê
porque a raça samba
todos sambam
devem sambar
a raça arrasa
arrasta o pé
sola branca
gasta servidão que o fundo
dos olhos testemunhou
a raça deve isso:
ao homem branco
divertir e aguçar os sentidos
porque ele é homem
o preto: é raça
mercadoria
satisfação do desejo
sacia a fome
faz o brilho da lua
ressaltar na pele escura
mas não come à mesa
abaixo dela o cachorro
vira-lata
a nova senzala é a televisão
o senhorio: eu
terça-feira, janeiro 20, 2015
versos espaços perdidos na solidão dos pássaros
atue na minha força
repulse na minha ânsia
⊷ ⊶
a depressão
depressa
depreda
⊷ ⊶
a vida resiste
onde o amor existe
⊷ ⊶
em súplicas relaxos e poesia
continuo eu labuta
na vida ocre e linda
à minha própria procura
sábado, janeiro 17, 2015
a infertilidade do verso vazio
(para isolda campos)
eu fadada à escuridão
repouso a mão sobre o ventre
murcho
há na madrugada
a morte anunciada
do poema faminto
a lágrima caligráfica
de uma vida infecunda
e o amor demorado
ocupam esse imenso e atordoado
espaço-vazio
eu penumbra e sombra
um vestígio de verso
suponho a morte
à chama derradeira
da palavrangústia
vertigem que sangra
sobre o poema nulo:
sou o corpo devorante
dessa existência que se ausenta
úmida e só
sexta-feira, janeiro 16, 2015
isolda campos
os olhos já não lacrimejam
como antigamente
a garganta agora em carne viva
fere cada palavra pronunciada
o ventre seco
já não compõe mais
quinta-feira, janeiro 15, 2015
a sina de todo poeta
(para diego moraes)
eu querendo cartas
juras de amor
embebidas no
teu perfume
recebo
telegramas
ordem de
despejo
com marcas de
dedo sujo
quarta-feira, janeiro 14, 2015
leveza sobre a mesa
mirar
a rima
que
dança solta
numa
festa lá na china
...
soltar a pipa
que a criança sorri
enquanto faz xixi
...
o vento faz a dança
do leva e traz
as cadeiras giram soltas no ar
...
tudo é leveza
quando se acorda
o papel em branco sobre a mesa
terça-feira, janeiro 13, 2015
o silêncio do verbo que reverbera
esse verbo
não dito
consome a noite
insone de ti
qualquer coisa
ainda que distante
traz à memória
o cheiro guardado
do poema esquecido
a cama feita
o lençol esticado
a lua iluminando
o chão com o teu nome
a importância e a delicadeza
das tuas horas
idas ao meu lado
eu evoco a ti
evoco tua rima cansada
e tu despontas
na versificação romanesca
do nosso passado
tudo passado em branco
tudo passado a limpo
o poema jaz emudecido
na lembrança
do nosso quarto adormecido
eis o silêncio:
o verbo que restou de mim
não dito
consome a noite
insone de ti
qualquer coisa
ainda que distante
traz à memória
o cheiro guardado
do poema esquecido
a cama feita
o lençol esticado
a lua iluminando
o chão com o teu nome
a importância e a delicadeza
das tuas horas
idas ao meu lado
eu evoco a ti
evoco tua rima cansada
e tu despontas
na versificação romanesca
do nosso passado
tudo passado em branco
tudo passado a limpo
o poema jaz emudecido
na lembrança
do nosso quarto adormecido
eis o silêncio:
o verbo que restou de mim
sexta-feira, janeiro 09, 2015
t r a n s p i r a ç ã o poética
transpiração
transpiração
transpiração
aspiração
transpira ação
transpira ação
transpira ação
poesia cardíaca
sua e agita
/agito e uso
poesia
minha droga (ilícita)
conforme a crítica
quinta-feira, janeiro 08, 2015
quarta-feira, janeiro 07, 2015
terça-feira, janeiro 06, 2015
poemeto da confidência
canta o pássaro
de cima do galho
/a árvore tudo sabe
confidente
praia do laranjal, 2014, 27 dez
sexta-feira, janeiro 02, 2015
rito de passagem
sigo
com
cuidado
mal
consigo
paro
acordo
recomeço,
cuidado
tenho
o passo firme
o coração leve
sigo
e só me entrego
se for amor
praia do laranjal, 2014, 28 dez
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