Quem sou eu

Minha foto
- O que escrevo? Não sei. Só sei que minha alma grita e eu já não posso mais abafar nem conter essa ânsia.

quarta-feira, maio 20, 2015

na fossa com a maysa

na fossa
a água parada
de poço que sou
comemora a vinda
do meu corpo que desabou
do alto barranco do amor
sem resposta sem soluço

sem cor nem pulso
                           convulso

domingo, maio 17, 2015

metade arrancada de mim

eu tento suportar
durante o dia
mas o sonho me acorda
para eu chorar outra vez
tem sido assim essa semana

vai ser assim para sempre


ao som de zizi possi e chico buarque: pedaço de mim

quinta-feira, abril 30, 2015

quem sou eu para te impedir o mundo

mas eu só queria
que tu olhasses
para mim, um pouco,
além de ti
e entendesses 
que aqui também
bate um desejo

terça-feira, abril 28, 2015

eu te sei


sensação amparo
o amor subjaz
nessa tua languidez materna
entreaberta que me
examina complacente a testa e o pé
e o coração enquanto eu
te sorrio sem perceber
//o amor tudo sabe tudo vê

terça-feira, abril 21, 2015

sintoma

amo escancaradamente
no plural

o amor é um sintoma
de quem está vivo

diagnóstico de quem vive 
plenamente

quinta-feira, abril 16, 2015

ser livre

toda dor
se compromete
com a verdade
de ser livre

deixa doer


com indicação da poeta alice pereira, para ler ouvindo lu horta: todo mundo quer amor

segunda-feira, abril 13, 2015

isto também é dizer amor


quando ela fala
é como se um anjo
pousasse-lhe na língua

⊷ ⊶

cisco sigo
sismo e curo
sigo só: medito

            ⊷ ⊶

essa faca
afiada desafia
minha poesia desafinada

            ⊷ ⊶

no princípio     no precipício
era o fim           o começo

sexta-feira, abril 10, 2015

ame-o e deixe-o

tenho em mim
o grito de liberdade
solto em meu sorriso

dou o direito
do meu amor
ser livre para amar

/o teu também


quinta-feira, abril 09, 2015

não-convencional

minha preocupação literária
não é com rotulações
definições em estantes
mercado editorial

meu compromisso
é com o ser humano
que possa vir a ler isto

meu compromisso
também é comigo

eu não sei fazer outra coisa
se não criar laços vínculos
me comprometer com o outro

de uma forma não-convencional
sem visitações nem telefonemas
meu comprometimento é espiritual
de toda forma e gesto – palavra

meu compromisso é amar
amar o outro que respira

a literatura me fez amar
os poemas os poetas
o ser humano e a vida

a poesia me fez amar
a filosofia a medicina
a morte e outra vez: a vida

a poesia me fez amar
e é amor que faço aqui
quando ocupo linhas
com palavras que pego para mim

meu compromisso é
com tua essência
mais profunda do que a genética
e te amo porque existes

terça-feira, abril 07, 2015

tortura lírica numa madrugada de abril repleta de mosquito grilo e amor

avesso isso exo expresso
aviso aquilo nego enxergo
vaso complico apego disperso
asco asco asco asco asco
vasto mim submerso

uma sacola de sentimentos soltos
recortados de revistas jornais
tudo o que meu olhar penetrar
reviro do avesso
cada aperto
eu me converto
num poema inanimado
enterrado corpo inteiro
um salto um berro me ajoelho
o eco absoluto num deserto
eu grão de sal
um grão de areia de sal
um grão de sal de areia
único na imensidão
esquecida de ícaro
imerso no aterro
desnivelado da minha
tortura lírica
convoco prismas budas e caducos xucros
iansãs maçãs e xamãs
tudo que reza feito imãs
adoço corações amargos
com pitadas de sarcasmos
comecei comigo
acabo contigo
morro conosco
nasço enquanto
nosso tempo, poetinha:
é sempre


segunda-feira, abril 06, 2015

bashô me disse

ássana

esse poema
escrito em sânscrito
fala de dor e encanto
     
ássana

em sânscrito
até eu viro santo
     
ássana

conhecedor do meu dilema
sou mestre numa
rua em diadema
     
ássana

ouço vou
digo sou:
norte de mim
     
ássana

incenso cheira
na quadratura mutável
que em mim anseia
     
ássana

medito dentro
fora de mim
amanheço

domingo, abril 05, 2015

to relive poesia

VIVER
IVER
VER
ER
REVIVER
EVIVER
VIVER
IVER
VER
ER
R

inventar a vida
quantas vezes
preciso for
poesia

quarta-feira, abril 01, 2015

uma mulher não cospe catarro na pia do banheiro


uma mulher não pode
 comentar sobre futebol
que vem 25 solicitações de amizade
masculinas no facebook como se ela fosse
motivo exclusivo de exposição
na vitrine para um bando
de abobalhado observar e julgar
suas preferências futebolísticas
colocando-a à prova
de tempo em tempo
para assinar o atestado de
que essa mulher
essa mulherzinha
não entende nada de futebol
porque uma mulher não pode
angélica freitas sabe
uma mulher não pode e não deve
caminhar na mesma calçada
em que o homem caminha
uma mulher não pode
pisar no mesmo gramado
em que o homem pisa e cospe e coça o saco
uma mulher não pode
se ela for machorra aí
ela tem o atestado
a prova do crime e o sapato
mas também ela está
em outra categoria
não é mulher
porque mulher não pode
deitar com outra mulher
gostar de futebol
quiçá comentar sobre
a lésbica não é mulher
é outra outro tipo
uma mulher não pode
angélica freitas bem sabe
uma mulher não pode nem deve
se faz é suja porca e sapatão
uma mulher que se respeite
não fala sobre futebol
só alcança a cerveja para quem entende
e vai dormir cheirosinha mudinha
sem coçar a boceta
sem soltar a calcinha apertadinha
sem cuspir o catarro na pia do banheiro
nem pensar não não não
uma mulher não pode
uma mulher não pode

terça-feira, março 31, 2015

incômodo cômodo

“e o que me resta
é só um gemido”
João Ricardo e Paulinho Mendonça

deitado sobre o
sofá do conformismo
assistindo à vida
passar na  tevê
outro dia mais
mais ninguém

/adiantando relógio
         tu também?

domingo, março 29, 2015

um MARço de saudade

a morte
sempre nos rouba
de nós

           ⊷ ⊶

cada um
com seu luto
sua luta diária

⊷ ⊶

em horinhas da tua ausência
meu coração é um oceano de dor

⊷ ⊶

minha dor pacífica
não cabe no oceano
  
            ⊷ ⊶

coração sangra
a falta tua
nesse espaço
imensamente vazio
onde deixastes marcas
do carinho teu

⊷ ⊶

toda noite
eu sorrio
para a lua
toda noite
o silêncio me desperta
uma lembrança tua

o amor: agiganta-se
debaixo das cobertas 
de estrelas sonhos 
saudades sem pressa


sexta-feira, março 27, 2015

revoltos fios de areia negra

teus cabelos negros
na areia da praia
revoltos fios de areia negra
dançam no mar 
coberto de lua

as ondas do teu corpo
o nó de marinheiro
da tua respiração

amar o amor
amar o amor
amar o amor
teu diafragma revela

o arquétipo das semideusas
desfilam nuas
na areia gelada da praia
nuas coexistem com o mar

amar o amor
amar o amor
amar o amor
iemanjá revela

tens de mim a imensidão do mar
vasta solidão
marinheiro só

amar o amor
amar o amor
amar o amor
eu nos revelo

quinta-feira, março 26, 2015

ginástica cerebral (ou sinapses relapsas capricham)

sinapses relapsas
capricham esse poema
empobrecido (mudo)

tudo escrito
no mais profundo
inconsciente

atento ateia fogo
em cusparadas
de verdades silábicas
contundentes rimas ricas
roucas loucas e frouxas

tudo dito
no que parece não dizer

léxicos grafemas fonemas
a língua um leque de possibilidades
guimarães na boca do povo

tudo dito
bendita seja
a palavra bem dita
que não digo

quarta-feira, março 25, 2015

ideolinski

b
e
n
d
i
t
a
a palavra dita

nada esconde
nem dor nem alegria
b
e
n
d
i
t
a
a palavra dita

tudo agita
coração e rebeldia

espinha de peixe

de que adianta
a resposta já sabida
se a espinha de peixe
fere tanto quanto
o beijo da sereia maldita?

terça-feira, março 24, 2015

liturgia-idiossincrática-literária

o poema emenda o edema
a poesia livra-me da azia
de estar só
                    boa parte da vida

segunda-feira, março 23, 2015

kiru

(para bashô e leminski)

morte: serena alegria
a folha amarela diante de
seu renascimento sobre a terra

domingo, março 22, 2015

haikai de outono

borboleta branca
bateu na janela do quarto
seria sorte? descuido?
/amanheceram folhas secas na minha cama

            ⊷ ⊶

para cada estação: haikai
para cada sensação: haikai
para cada vida: poesia 

sexta-feira, março 20, 2015

qualquer dia desses, maria vai chorar rosas

qualquer dia desses
vou tocar numa banda
em plena praça sete
vou jurar que
todas as rimas
causam estranhamento
todas as primas pedem
por um pouco de rebeldia
e vou doar minha poesia
para uma igreja
no meio do nada
e nesse dia
maria vai chorar rosas
e a cidade inteira
de mãos dadas
vai fazer festa
em volta de uma fogueira
cantando e dançando amor
para qualquer um
que não se perceba
nem mesmo diante do espelho

terça-feira, março 17, 2015

sobre pedras e amor federal generalizado

subi na vida
sou maior que dilma
e deixo obama no chinelo
estou ao lado de deus

estou seguindo carreira
num papel
não como escritor
sou orgânico*

fui promovido com méritos
sou lei de uma constituição
sou essencial para qualquer nação

sou regra categórica
acima da verdade
ao lado de deus

sou orgânico
sou regra sem exceção
minha lei é o A M O R

e tenho dito




* Nota do Autor: Segundo Dicionário Houaiss. Rubrica: termo jurídico. Que preside à organização de um governo (diz-se de uma lei constitucional ou essencial).

sábado, março 14, 2015

madrugada indômita

sou a madrugada

que revela suas dores
mais íntimas
enquanto a cabeça
embala seus tormentos diurnos
no travesseiro noturno
dos lamentos

sou a madrugada

escura, insone
terrivelmente íntima
mergulho debaixo de lençóis
invado sonhos
desconstruo narrativas
manipulo emoções
agito tuas cobertas
e em sobressaltos
relembro desassossegos esquecidos

sou a madrugada

friamente acolhedora
penetrante, irrefreável

incurável

fala-me de sol e solidão e em tudo canta-me o amor

                               (para a baiana Alice Pereira)

clave de sol
linda
salta da tua
SOLidão
e canta-me o amor
em dor maior

sexta-feira, março 13, 2015

em tempos de crise, a literatura salva

meu movimento
é literário

minha manifestação
é puramente poética

estou de viagem marcada para o sertão da minha solidão

a saudade é tanta
que eu ainda nem desfiz as malas
vai fazer um mês agora domingo

a bagagem continua pronta
intacta na sala perto-da-porta
para o caso de eu poder voltar

porque dessa vez
a imagem no espelho revela
parece que fui eu
quem realmente foi embora
me deixando para trás
            outra vez


quinta-feira, março 12, 2015

papoulas, gás e plath

agora
enquanto você sacode
esse poema sujo
para que nada presta
tem alguém
com a cabeça
dentro do forno
intoxicando o mal-sentir
daquilo que não passa
nem com a poesia anestésica de plath

terça-feira, março 10, 2015

resenhas da solidão – dor inútil

discurso ausente
o isso estagnado
minha poesia
canto livre
e nada: mesma coisa
                        
não quebra muros
não interrompe guerras
não salva ninguém
nem a mim

inútil

tão inútil
quanto a palavra gravada
numa folha branca
mofando dentro de uma gaveta
na úmida e vazia satolep

segunda-feira, março 09, 2015

caminho veríssimo

                              (para o meu grande e único amor)

que minhas lágrimas não me impeçam de
desvendar e contemplar o nascer do poema
a cada novo dia na estreita e mal iluminada satolep

que deixastes para eu tomar conta
enquanto não te demoras abraçando
[esse mundo todo teu

e que sob às margens do teu guaíba
quintana passarinho abençoe e cante o nosso amor
para quem tem medo de correr riscos

                                                               [e ser feliz ainda hoje

sábado, março 07, 2015

esse é o trem que me leva para a fonética praga

                      (para giovana gonçalves)

foi

como se o peso
sobre os ombros
no ar rarefeito

ficasse

leve como pena
pena de ave
que voa alto
perto longe rasante

fiquei

solta no ar
as pernas pêndulo
o corpo livre
a vida testemunha
do meu riso
alívio prego enferrujado
marteladas te quero
não hoje: agora
sob o mesmo

verbo

código fonte: mira
a minha sina
de ser aqui
para estar ali
no que dizes
enquanto eu sinto
no que digo
enquanto tu sentes

poema

que automático compõe
estradas: labirínticas rimas
para o amor

sǫu

termino a estrofe
com tua cartada
na manga doce
da blusa longa
que cobre braços
liberta teus abraços
no meu corpo
envolto de língua
acesa no dicionário
quente: místico transcende
tua papila gustativa
delirante sobre vogais
acentos consoantes danças
gal carnes ramil
no mp3 ocupa
teus ouvidos lindos
escutam: tudo ama
baixinho composto vermelho
entrada subterrânea: coração
minha vida impregnada
língua: linguista: linguística:
é esse trem
que me leva
para a fonética
praga?

formalismo

russo costura círculo
jakobson leminski gonçalves
na mesma terra
de fernando pessoa
que pessoa pessoa
humana revela: emana
amor palavra devoção

tua linguística mística
de volta volta
volto volto volto

vou

como se o peso
sobre os ombros
no ar rarefeito
leve me levasse
para a casa
de volta volto

quarta-feira, março 04, 2015

a noite amanheceu em meu coração

    (para o meu grande e único amor)

não duvido
do nosso amor
para ter certeza de
que tens o mundo
na palma das tuas mãos

/sei porque sinto

o infinito é teu e,
ainda sim, eu sou tua
toda tua nesse mundo
que será para sempre: nosso


segunda-feira, março 02, 2015

na estrada, a saída é sempre chegada de alguém

coração-inquieto, responda:
quando aconteceremos
outra vez depois
do para sempre
que mentimos para nós
com honesta franqueza?

sábado, fevereiro 28, 2015

céu de fevereiro

tudo parece
em ordem
olhando daqui
debaixo
tudo parece possível
sobreviver

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

praticando zazen enquanto caminho no centro de satolep

por que insisto
em desviar o olhar de ti
      que me espelha?

serei de fato essa mulher
tão infeliz
      comigo mesma
que não sou capaz de suportar
enxergar-me em ti
quando de frente vens a mim?

serei eu essa dor
fugindo dos teus olhos
em meio a escandalosa
chuva de verão
que n'outro dia inundou
a cidade inteira?

universo,
perdoe minha falta de brio

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

vestígios no escuro sobre o poema anímico

sou traça
sem casulo

devorando os papéis
com o teu nome
nos poemas

que ainda nem fiz


sou traça
trago voo
sem rumo
me transformo

sumo
no mar e pouso

no escuro
fundo de mim
existo




quarta-feira, fevereiro 18, 2015

sambinha da quarta-feira de cinzas

o que será
o que será
o que foi me acontecer?

por que será
por que será
que eu só penso em você?

terça-feira, fevereiro 17, 2015

empoeirado na estante da tua sala de jantar

poeira é poesia
que o vento leva

cada grão de areia
cada ácaro que dança
livre acima da tua cabeça
é um poema de amor

escrito sob o jugo
leve dos santos
empoeirados na estante
da tua sala de jantar

manifestação da vida é acordar
todo dia e me empoeirar de mim
com o júbilo de me

encostar na tua roupa
penetrar no teu ouvido
e sujar todo o teu coração

com a palavra-lembrança
do meu amor que bem sabe esperar


quinta-feira, fevereiro 12, 2015

morfologia de verão

desabafar é sempre bom
sempre faz bem

é urgente
e preciso

ainda mais nesses dias
de calor intenso

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

terça-feira, fevereiro 10, 2015

ela, elos de gabriela

           (para gabriela soncini)

ela que é um céu
e seus constantes milagres
as cores de netuno
o arco-íris depois
da chuva de verão

ela que é os ventos
que sopram do norte
e regem a aurora boreal
pra lá de nós

ela que magnetiza
toda força sideral
e das lágrimas de saturno
faz encher os vales e os rios
faz da seca solo fértil
faz da morte: vida despertar

ela que tinge em tons quentes
a tristeza e violência humana
transforma chuva de balas perdidas
em sementes de rosas
que floreiam sacadas
e salas de aulas

ela que é o mais puro
amor genuíno
ela que é gabriela

ninguém ousaria 
não querê-la
tal como ela

sábado, fevereiro 07, 2015

o peso dos teus sapatos

                  (para fernanda weykamp) 

na madrugada
a dor faz serão
rasteja baixinho
fazendo tremer paredes
derrubar cobertas no chão
e despertar alarmes

o soluço da dor
quebra em ondas do mar
a correnteza – submissa e complacente –
devolve
o que nunca foi embora

na madrugada
um grão de areia
na cama
lembra a falta de sorte

de ter perdido
o pôr do sol na praia
e de caminhar sobre a areia
de meias e sapatos quentes
abarrotados de pressa e silêncio

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

zona de confronto

pretobras
no bras?
não se vê

preto só de longe
que é pra embelezar o bras
que a silvia pilz vê
estrábica que é, coitada

mas o SUS tem piedade de ti, 
calma!, aguarde na fila
o próximo ano chegar


a partir da existência dessa senhora com carência afetiva

para ouvir itamar assumpção - pretobrás

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

madrepérola

todo vendaval
revela o homem-nu
       santo e demônio
por detrás da cortina

eles que habitam nossa pele
demasiadamente frágil
        com marcas de todo gozo e mácula

no calvário da escrita profanadora
debaixo das saias dos sacerdotes brancos
 a fé decorada regozija
        nas contas de madrepérola abençoadas

filho pródigo

       (para alice pereira)

abrace
as misérias
do teu cotidiano
como quem
abraça a um filho
perdido e temeroso
porém pródigo
que à casa sempre torna
à procura de alento
no retiro distante da
poesia reconciliadora
nossa de cada dia


ao som de bruno batista - bonita

terça-feira, fevereiro 03, 2015

sobre amar a quem, olhando sempre além

tem horas
em que o braço fica leve
o peito receptivo
à vontade de amar
e fazer amor em quem
o olho primeiro – e segundo
 parar

tem horas
em que os braços
enlaçam o corpo mental
físico e espiritual do outro
e é na horinha transcendental
desses três corpos num só abraço
que o amor se encaixa

e reside 
na eternidade
atemporal do bem-amar
por amar e amar com demora

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

no amor, teu amor

                 (para o meu único amor)

no amor
há quem perca
o sentido a razão a eloquência
tu, pelo contrário,
me demoves a impaciência
me comoves à coerência
justificas minha existência
tornas-me em um ser menos vadio
não me cegas os passos

tu, meu amor-transcendental
me acodes
e me sacodes por inteira
nunca estive tão viva
desde a chegada
de tua genuína humanidade

estou a salva
curada de qualquer desistência
nesta e em qualquer
outra vida

sábado, janeiro 31, 2015

navalha do desprezo

engolir a navalha do barbeiro
que de corte em corte afia
o fio daquela lâmina
ora envolta de uma toalha
de linho branco e macio
ora cortando o mal pela raiz

engolir a navalha do barbeiro
a seco mesmo
deixar tomar a reta
arranhando e rasgando
e sangrando a garganta

depois jogar por cima
beber querosene e riscar
um fósforo goela abaixo
deixando o produto agir
e beber de novo
até queimar
até não restar mais
monossílaba de horror

te juro: doerá

mas doerá bem menos
do que o teu habitual desprezo

para contigo mesmo

sexta-feira, janeiro 30, 2015

repeat

              (para gal costa)

quando as horas
de um dia
me doem mais
e ultrapassam as horas
em que só me encontram
debaixo das cobertas
nuvem negra toca – com a incidência
das ondas sonoras da minha pulsação

deito minha dor sobre aqueles
quatro minutos e trinta segundos
vezes dor elevada à quinta potência
de pura melancolia acompanhada

nossas dores se confundem
ela canta e eu me retorço
com a dor que é melódica
em tons de vermelho
que só eu sei

excelência dessa vida: é doer-se
e continuar vivendo
apesar de 
cada nuvem negra 
que se forma em meu céu

ao som de gal costa – nuvem negra

quarta-feira, janeiro 28, 2015

catástase poética

dentre todas as solidões
com que me parisses
a poesia foi a melhor delas
com sombras

mas sem dúvidas

sábado, janeiro 24, 2015

o sorriso da lua

a brevidade do voo
tem o pouso noturno
nos cabelos de luz
dessa noite

a lua minguante
sorri enquanto sonha
de frente para a tua janela

quinta-feira, janeiro 22, 2015

o poeta em constante queda livre

o amor é uma janela
na qual só os poetas
têm coragem de
se debruçar
correndo o risco
da queda livre

⊷ ⊶

o suicídio do poeta
é amar em demasia

quarta-feira, janeiro 21, 2015

o proprietário da nova senzala

a raça
arrasa
carne vendida desde
antes da fome
hoje
apetece ao olhar
desejo íntimo
não impugna a podridão humana

quer cheirar, lamber, comer
açoitar e escravizar
a carne negra

a mulher preta
coberta de purpurina e tinta
samba na tevê
porque a raça samba
todos sambam
devem sambar

a raça arrasa
arrasta o pé
sola branca
gasta servidão que o fundo
dos olhos testemunhou

a raça deve isso:
ao homem branco
divertir e aguçar os sentidos

porque ele é homem
o preto: é raça
mercadoria
satisfação do desejo
sacia a fome
faz o brilho da lua
ressaltar na pele escura

mas não come à mesa
abaixo dela o cachorro
vira-lata
a nova senzala é a televisão

o senhorio: eu 

terça-feira, janeiro 20, 2015

versos espaços perdidos na solidão dos pássaros

atue na minha força
repulse na minha ânsia

                ⊷ ⊶

a depressão
depressa
depreda

                ⊷ ⊶

a vida resiste
onde o amor existe

⊷ ⊶

em súplicas relaxos e poesia
continuo eu labuta
na vida ocre e linda
à minha própria procura

sábado, janeiro 17, 2015

a infertilidade do verso vazio

             (para isolda campos)

eu fadada à escuridão
repouso a mão sobre o ventre
murcho

há na madrugada
a morte anunciada
do poema faminto
                            
a lágrima caligráfica
de uma vida infecunda
e o amor demorado
ocupam esse imenso e atordoado
espaço-vazio

eu penumbra e sombra
um vestígio de verso
suponho a morte
à chama derradeira
da palavrangústia

vertigem que sangra
sobre o poema nulo:
sou o corpo devorante
dessa existência que se ausenta
úmida e só



sexta-feira, janeiro 16, 2015

isolda campos

os olhos já não lacrimejam
como antigamente
a garganta agora em carne viva
fere cada palavra pronunciada
o ventre seco
já não compõe mais

quinta-feira, janeiro 15, 2015

a sina de todo poeta

          (para diego moraes)

eu querendo cartas
juras de amor
embebidas no teu perfume
recebo telegramas
ordem de despejo
com marcas de dedo sujo

quarta-feira, janeiro 14, 2015

leveza sobre a mesa

mirar a rima
que dança solta
numa festa lá na china
           
...

soltar a pipa
que a criança sorri
enquanto faz xixi

...

o vento faz a dança
do leva e traz
as cadeiras giram soltas no ar

...

tudo é leveza
quando se acorda
o papel em branco sobre a mesa

terça-feira, janeiro 13, 2015

o silêncio do verbo que reverbera

esse verbo
não dito
consome a noite
insone de ti
qualquer coisa
ainda que distante
traz à memória
o cheiro guardado
do poema esquecido
a cama feita
o lençol esticado
a lua iluminando
o chão com o teu nome
a importância e a delicadeza
das tuas horas
idas ao meu lado
eu evoco a ti
evoco tua rima cansada
e tu despontas
na versificação romanesca
do nosso passado
tudo passado em branco
tudo passado a limpo
o poema jaz emudecido
na lembrança
do nosso quarto adormecido
eis o silêncio:
o verbo que restou de mim

sexta-feira, janeiro 09, 2015

t r a n s p i r a ç ã o poética

transpiração
transpiração
transpiração

aspiração

transpira ação
transpira ação
transpira ação

poesia cardíaca
sua e agita
/agito e uso

poesia
minha droga (ilícita)
conforme a crítica

terça-feira, janeiro 06, 2015

poemeto da confidência

canta o pássaro 
de cima do galho
/a árvore tudo sabe
confidente


praia do laranjal, 2014, 27 dez

sexta-feira, janeiro 02, 2015

rito de passagem



sigo
com
cuidado
mal
consigo
paro
acordo
recomeço,
cuidado

tenho
o passo firme
o coração leve
sigo
e só me entrego
se for amor



praia do laranjal, 2014, 28 dez