Quem sou eu

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- O que escrevo? Não sei. Só sei que minha alma grita e eu já não posso mais abafar nem conter essa ânsia.

quarta-feira, agosto 03, 2011

UM GOLE DE COCA-COLA


Cresceu sem os pais. Na verdade, muito embora doa na lembrança, Margot admitia não ter pais. Tinha mãe, é claro. Desde sempre sabia que a história da cegonha não se sustentava e, por isso, fazia questão de explicar para as outras crianças de sua idade, no entanto ingênuas, que os bebês nasciam após o contato do pipi do papai com a pepeca da mamãe – era o que sua mãe havia lhe ensinado, e ela testemunhava com seus próprios olhos todas as noites. Algumas, duas vezes com dois homens diferentes juntos. Achava normal. Afinal de contas, ela foi fruto disso. Daquele contato todo suado e de pouco toque. Brutal e animalesco, quase. Mas não era a cegonha, não. Era a mamãe, simplesmente genitora, essa daí.
O pai, como se podia imaginar, não a registrou. Sua mãe nem mesmo fez questão de inventar umas histórias bobas, dessas cinematográficas, foi logo dizendo que não sabia quem era. Eram tantos e muito provável seria nenhum que pudesse se lembrar. Tinha também aqueles, depois dos engradados de cachaça pura e de alguns cigarros - esses que só a fumaça de longe deixava a então pequena Margot vendo pôneis cor-de-rosa brincando de pular cordas nas nuvens. Assim, ela era a menina da sua idade. Fantasiava histórias de amor, com muito choro ao final, mas até com alguns sorrisos, meio bobos, grogues, como se estivesse realmente apaixonada. Como se pudesse saber que aquilo existia e fosse ela capaz de sentir.
Em certa manhã chuvosa, a polícia bateu à porta do pequeno cômodo onde moravam Margot, mãe e a irmã mais velha com algum retardo mental, que a mãe nem tivera o interesse de querer se informar sobre o caso. O policial foi direto: a mãe foi encontrada morta em uma estação de trem do outro lado da cidade. Quase saindo dela, chegando em Boa Vista. Morreu esfaqueada, propriamente, degolada por um travesti que não queria perder seu ponto de drogas e sexo barato e fedido. Foi preso na cena do crime. Por um acaso, um policial fazia ronda naquele local, talvez, não era bem ronda que ele fazia, mas é evidente que isso não constou nos autos. O policial fez algumas perguntas que Margot respondeu com altivez inesperada para sua idade e foi embora em seguida. Fingindo que a menina de destino infeliz estaria segura, ou ao menos amparada. Entrou no carro e cantou pneu. Margot olhava-o, perdida e ao mesmo tempo orgulhosa, através da janela. Sentiu uma lágrima molhar a bochecha direita encardida e jurou para si mesma que isso nunca mais iria acontecer. Nem bem mesmo sabia por que essa lágrima havia escorrido. Simplesmente, a enxugou com o punho encardido de seu casaco. E não pensou mais sobre isso.
Não tinha tempo para pensar naquela lágrima. Cuidou da irmã débil com amor sincero. Dava-lhe banho de água gelada, era só o que tinham, e comida quando algum vizinho trazia sensibilizado pelo desgraçado destino que aquelas almas ainda infantis e já tão sofridas teriam. Ocupava-se de mais com a irmã e em arranjar comida para as duas. Perdeu as contas de quantas vezes precisou deixar de comer para ter o que dar à irmã. E fazia isso sorrindo sem um dente de leite da frente.
Os meses passaram. Margot trabalhava fora. Reconheceu nas ruas alguns dos homens que frequentavam sua casa no tempo em que a mãe era viva e lhe ofereceu alguns serviços - sem nem bem saber o que teria de fazer, de fato. Eles aceitaram, não pensavam nas consequências. Queriam o gozo em troca de algumas moedas e, às vezes, por garrafa pequena de coca-cola, a qual presenteava sua pobre irmã doente que, encantada, sorria com a boca torta e fazia sinal de positivo com o dedo atrofiado e a mão endurecida.
Em um desses encontros de provocar vômitos em Margot - de revirar o estômago de qualquer um com o mínimo de juízo que fosse -, a menina que não aguentaria mais o bolo fofo, o maldito careca chamado Jesus do Santos, que deixava o suor pingar em sua cara com expressão atônita de pavor, esticou o pequeno braço e tateou a grama do mal iluminado Jardim das Acácias, até encontrar o canivete que havia escondido. Sabia que, menos dia, precisaria dele. Enquanto o revoltante balofo revirava os olhos e remexia-se amassando a pequena contra o gramado molhado do sereno, Margot desferiu um golpe certeiro, de canivete, na imensa barriga de seu cliente porcalhão. O canivete precisou ir a fundo. Atravessar aquele amontoado de banha azeda até chegar a algum órgão vital que a menina desconhecia o nome e a existência. Mas foi de uma frieza absurda. Nem ela mesma acreditou no que fizera. E o balofo tombou em cima de seu corpinho infantil. Pesando uma ou talvez duas toneladas. Margot custou para jogá-lo para o lado, mas quando o fez, saiu correndo. Tropeçando na própria coragem que havia, nesse momento, tornado-se medo. Um medo do tamanho do mundo. Pesando duas toneladas como o gordo que sangrava no gramado do jardim sem mover um só dedo, apenas sangrando e suando e fedendo feito porco. Como era. Porco e imundo.
Continuou correndo até que caiu por não mais conseguir suportar aquele peso todo em sua estrutura fraca e esquelética. Caiu feito uma pedra. Uma rocha. Gigante. Como vira na televisão um dia em que foi comer uma torrada em um boteco da esquina. Aquilo fora o seu pagamento do dia. E que ela ficasse contente – dizia outro velho sem dente, quase caducando. Estirada na grama úmida, Margot ficou aos prantos por longos minutos até que pegou no sono. Estava exausta. O corpo em frangalhos. Parecia que tivera sido atropelada por uma multidão ou coisa parecida. Sentiu algo quente em suas costas. Uma água quentinha. Sonhou que tinha gás em casa e que ela e a irmã puderam tomar, pela primeira vez em suas vidas, um banho quente em pleno verão de altas temperaturas nortistas. Acordou com sua própria risada e um cachorro de porte pequeno, desses vira-latas, lambendo sua orelha. Era ele quem havia dado um bom banho de mijo quente em Margot. Que só soube correr, assustada. Chegou ao pequeno cômodo onde morava quando o sol parecia quer sair para o dia enfim nascer. Acordou a irmã carinhosamente, apesar de visivelmente nervosa e apressada, dizendo-lhe que as duas iriam dar um passeio, iriam tomar coca-cola e ver o mar. Sabia que essas duas palavrinhas mágicas, coca-cola e mar, seriam tentadores para a irmã, que só conhecia o mar pela televisão da vizinha que a fazia companhia quando a irmã saia para comprar o refrigerante e só voltava no dia seguinte, esfolada nos braços e rosto.
As duas caminhavam quase que correndo pelas ruas do movimentado centro. A irmã, que nunca vira tanta gente junta antes em toda sua vida, chorava e se debatia de medo. Acalmava-se somente quando a sua protetora dizia as duas palavrinhas mágicas. E rumavam apressadas. Depois de muito andar, entraram no trem da estação mais próxima, a duas horas de sua casa. Porém, precisariam pegar um  ônibus também para chegar onde queriam. O ônibus circulou por mais meia hora até que Margot pediu para um senhor dar o sinal de parada para o motorista. As irmãs desceram exaustas do ônibus. Mas logo abriram um sorriso imenso, nunca visto antes, quando viram que estavam no calçadão, em frente ao mar. Correram pela areia quente e fofinha da praia. Sentiam-se livres. Por um momento: felizes. Dividiram uma garrafa pequena de coca-cola e entram no mar. Estavam felizes e refrescadas. O último gole do refrigerante foi para a irmã mais velha, que tinham os olhos tão iluminados que chegavam a faiscar. Margot estava realizada. Sentia que podia morrer naquele instante. Tinha cumprido seu dever, tinha vivido seu destino. Sorriu para a irmã e disse gentilmente que no fundo do mar havia muitas garrafas de sua bebida preferida, e que era só mergulhar bem, bem fundo que iriam encontrá-las O sorriso e a felicidade eram recíprocos. Mergulharam então.
Até então, o que se sabe que sobrou dessa história foi a garrafa de coca-cola que, com a ressaca de Iemanjá do dia seguinte, voltou para a beira do mar sem as duas irmãs.





Ah!, e antes que você me pergunte sobre o que aconteceu com o bolo fofo eu já lhe digo. O desgraçado foi jogado no necrotério como indigente. Sua carteira havia sido roubada minutos depois do golpe certeiro de canivete. Ninguém deu queixa na polícia sobre o seu sumiço. Morreu sem nome, o canalha. Não o merecia mesmo.

segunda-feira, agosto 01, 2011

O MANTO DESGRAÇADO

 
Ainda sob enfeito do cochilo pós-almoço, espreguiçou o corpo delicado e perfeitamente curvilíneo na varanda de sua cobertura. Debruçou-se sobre a sacada e deixou que o sol invadisse seu corpo sem qualquer rejeição. Sentiu a mão suave do sol por de baixo de sua saia, contornando os joelhos, deslizando sobre as coxas... Assustou-se com o que sentiu. Com as lembranças, o passado, os cabelos negros e tão vivos, de que recordara. Os girassóis que recebera naquela tarde, naquele dia de sol macio da primavera em plena praça, ambas deitadas sobre a toalha amarela, as mãos macias entrelaçadas e o calor que queimava embaixo do jovial vestido rendado..., e... Sentiu vergonha de si mesma, de seu calor. Rapidamente, beijou o crucifixo que servia de pingente para a sua gargantilha de ouro cravejada de minúsculos diamantes. Ganhou o regalo quando se formou na faculdade de Medicina, há quarenta e cinco anos, de sua mãe. Foi o que restara de sua pequena família. 
Ao sentir seus rosados lábios macios, lembrou-se de que não teria a quem repassá-lo. Sou uma solteirona, resmungou. Morava sozinha em sua imensa cobertura de luxo. O apartamento era dos grandes, e tornava-se imenso, de metros quadrados a quilômetros de distância no despertar dos olhos – e da lucidez.
Era, na realidade, uma senhora, embora as curvas de seu corpo não indicassem que o tempo houvera passado para ela – talvez, tenha passado por ela, em companhia da vida. Mas passou – e vai passar para nós também. Os anos pesavam em sua alma, e somente ela poderia medir o peso de sua solidão. E como pesava. Dedicar uma vida inteira, cumprir ao pé da letra o juramento feito em lágrimas há décadas confusas... preencheu uma vida. Preencheu de solidão – pensou. E com os lábios sedosos nunca antes tocados beijou a cruz e o homem que estava pregado nela. Ele também se entregou às pessoas, irmãos que nem mesmo conhecia e teve seu destino. Pregado à cruz. Sozinho e sangrando. Como ela. Não, não que fosse materializada da mesma luz e compaixão incondicional que as dele e seu nome nem era Maria ou Raquel – se bem que poderia ser Dalila ou Marta –, mas simbólica e profeticamente tinha seu destino narrado por lamúrias de sua alma apedrejada, humilhada e crucificada, em orações. Por ela, talvez. Pelo destino, amen.
    Culpava o destino, acomodava-se com ele e explicava a si mesmo em passagens bíblicas e velas acesas a santidades maternais e sofridas o seu sagrado destino. Aqueles rostos esculpidos em nome da fé eram estupidamente melancólicos – pensou sem perceber as lágrimas escorrerem pelo seu rosto.  E tornou a beijar a cruz e o homem seminu. Decidida a conter esses pensamentos demoníacos que não a deixaria cruzar o grande portão, cobriu seus cabelos, esbranquiçados pelo tempo de devoção e submissão, com o manto azul céu de seda e fechou atrás de si a porta de sua cobertura. Tomou o elevador para descer os trinta andares que a mantinha mais próxima do céu e, sentindo-se cada vez mais pecadora, mais desejosa de ter sol de cabelos negros e unhas bem feitas invadir sua saia, acariciar suas belas coxas intocadas e beijar sua alma pura e santificada, atravessou a rua a passos largos e apressados. O manto de seda da cor do céu daquele dia cobria seus brancos e ainda mais o seu colo ironicamente não abençoado. Caminhou o mais depressa possível, subiu as escadarias de joelhos, como em sacrifício e devoção ao santificado nome, e entrou na igreja banhada em lágrimas, suor e desejos forçosamente esquecidos. 
Ficou sentada na primeira fila à espera da missa das 16h30min – e ainda faltavam quase três horas para isso. Mas ela não iria se incomodar – eu sim, impaciente como tal...
Precisava purificar seus pensamentos repetidas vezes, espantar os demônios que a levava a perdição agarrando-lhe as coxas. Seus demônios, apenas. E sacudia a cabeça, espantando para longe as imagens daquela tarde de girassol e confissões. E aquele peso no corpo, o peso de sua cruz, o sofrimento do homem seminu..., também eram só seus, era essa a sua solidão, ainda que eu, caro leitor, saiba do seu porquê, não posso desviá-la de seu caminho. Não sou seu deus. Embora eu sangre também. Por ela.

domingo, julho 24, 2011

Sopro de vento, vida


O sopro de vento eriçou a pele pálida.
O sopro de vida selou a pálpebra dos olhos,
Trancafiou lembranças e libertou segredos.

Com esse sopro tudo vem, tudo se move, tudo se rompe.
Os soluços... os laços.

Os abraços afrouxam, a voz cala,
A saudade aperta
E os mundos se separam.

Sopro de vida em vento que vai e não volta mais.

domingo, julho 03, 2011

Poema de amor

Não, não era o que havia pensado e desejado em tempos atrás.
Um sonho louco, um sussurro de quimeras entre
os beijos na palma da mão e os abraços por escrito.
Era um sonho. Um louco desatino em passos largos,
dados em milhas de solidão a dois.

Um sonho de amor, o louco e insano
desejo de amar a ti, amar a mim.

Ama-me com soluções de poesia.
Ama-te como se jamais fosse durar o amanhã.
Ama-te e a mim.
No calor das canções,
nos abraços de paixões.
Ama-me como se eu fosse
tua única poesia.

sábado, junho 25, 2011

Bandeira branca

O bonito do ser humano é a capacidade que ele tem de agarrar com as duas mãos, que seja por um segundo apenas, aquela centelha de vida quando ele ainda está debaixo dos escombros. É o que o torna incrível. É o que o torna Humano.

sábado, junho 18, 2011

Cicatrizes


Ladrilhos de dor. Junho/2011.Pelotas - RS

Pulsou. Vazou e sangrou.
Penetrou na terra. Estacou.
Enraizou. Cicatrizou. 
Curou.

vazio maligno

Emagrecida de saudades, 
pintada de olheiras enormes 
de tantas lágrimas que não secam mais.

quinta-feira, junho 16, 2011

Perdas e ganhos





[E se eu pensar em me achar ou me perder... 
que de um lado para o outro a ponte seja o amor. 

O céu pode ter a cor que for, 
mas que em meu coração tenha apenas amor.]

quinta-feira, junho 02, 2011

As últimas horas de um homem

Não sabia que eram suas últimas horas.
Mas sentia um aperto em seu coração 
que lhe dava a certeza 
de nunca mais ver o céu azul  de Westerbork
e a Primavera dando cor e vida àquilo
em que as mãos dos puros cristãos
ainda não haviam tocado.                                                      
              

                                                                                           Sentia o suor correr de sua testa desacostumada às caricias de sua amada. 
Beijou (e)ternamente  o dedo em que, antes das agressões desumanas, 
era envolvido por uma linda argola dourada. 
Beijou-a com lágrimas acinzentadas nos olhos.


Era o primeiro da fila. 
Apesar da extrema magreza,
foi firme e valente até o último segundo.
Os homens cristãos cuspiram-lhe a cara,
alegando sua valentia como afronta aos designos de Deus.

O valente, vendo uma linda e encantadora luz 
à sua frente, sorriu sem perceber que os homens de Deus
mantinham a arma apontada para a sua fronte.


Valente, viu aquela brilhante luz 
tomar a forma de uma mulher. Alta e tão familiar.
Lágrimas cristalinas brotaram de seus olhos,
que iluminados, viram ascender a chama da esperança.

Os servos de Deus livraram-se às pressas de suas armas.
Entorpecido, o Valente, viu os cavaleiros da paz
libertá-los da escuridão
e dos arames que lhe eram enterrados diariamente na alma.
Deram-lhe comida, água e roupas limpas.
E, sobretudo,
devolveram-lhe o que era de direito.
Devolveram-lhe a liberdade. 
                                                          

terça-feira, maio 31, 2011

Dia incomum

Subira no ônibus como em todas as manhãs comuns e indiferentes. Avistara o primeiro banco vazio e é nele em que ela senta. Não olha para os lados, nunca. Mas, hoje, sem saber porquê escorregou o olhar para o cobrador que lhe sorriu mostrando grandes dentes brancos. Tímida, retribuiu. Sentara-se no seu banco predileto e o vira, sentado em sua frente, cabelos macios e cheirosos como de costume. Antes que ela chegasse, ele estava sempre ali. Sempre no mesmo banco, os mesmos cabelos macios. Mas, hoje, hoje especialmente ele lhe sorrira e, de súbito, pulara para o banco de trás, ao seu lado, e os dois sorriram tímidos até o final da linha.

sexta-feira, maio 27, 2011

Descobertas, imagens e corações

Que venda, que maldita venda é esta que insistes em usar para tapar os sóis..., as tuas verdades? Não basta o amor superficial e não recíproco dos homens da terra e, agora, crias falsas verdades para a tua pisquê hostil e ridiculamente comum? Quantos mais desamores precisarás sentir para encarar tua verdadeira face frente ao espelho? Meu caro, espelhos não metem jamais, deixe tua alma neles refletir. O mundo é perverso, mas o homem lutando contra sua própria essência sofrerá, ainda mais, por tantas quantas reencarnações forem necessárias. Liberta-te da imagem superficial da vida mundana. Liberta-te do que não faz parte de ti. Liberta-te em ti.

Vazio e outros reflexos, ecos

      A solidão sentida é mais do que a ausência do contato físico. O que me deixa com a sensação de vazio é ausência da compreensão daquele que toca e ouve, mas que não tem capacidade em compreender o significado do meu silêncio e, por vezes, do meu  grito abafado e do sangue estancado. 
Não é o contato físico, a carne meramente posta ao meu lado, é a compreensão que me faz falta, a compreensão do silêncio das palavras sofridas, do confortar com os olhos, do tocar a alma e embalar meus sonhos. É a essência, a parte Humana extinta do ser que me deixa rasa. Fria, melancólica e estupidamente ereta.

quarta-feira, maio 25, 2011

Sempre que a solidão bate à minha porta - e todos aqueles que transitam pelos mesmos cômodos e estradas do que eu parecem-me passar por dentro de minha carne sem deixar nada como uma singela lembrança - recorro às linhas confessas de Plath. De tão sinceras que são, se confundem aos vinte e dois outonos, parecem tão minhas que, sei lá, chego a pensar que já fui pena e papel dentro de sua gaveta.

Aconchego-me em seus versos como se estivesse estirada em uma grande e macia nuvem de algodão. Reconforto-me e afogo-me novamente. Diariamente, agora.

domingo, maio 22, 2011

Expressão

Foi necessário expandir. Recriar verbos e formas de manuscritos para amparar o que de mim transborda.
Não é feita da junção clássica de quem tem dom e o usa de maneira mais genial possível. Foi um sobressalto. O despertar de  uma inspiração adormecida. Uma vontade absurda de fazer e dar contorno a tinta que me seduz. Processo único. Um momento e um suspiro. Toda recordação partilhada com o desejo inovador de me recriar. Redescobrir os horizontes perdidos dos traumas de uma lâmpada queimada. Redescobrir a palavra transportada em diagramas, cores que flutuam e se fundem numa mistura imatura de uma mente em crescimento.


Resgatando o passado. O momento crucial, no qual definiu as tempestades de inverno em ondas de calor dum mar do Cassino. Recordar as idas e vindas. Os não saberes e os quereres num emudecer das canções.
Reconstruindo as tardes de sol trancafiada no quarto, planejando, desenhando e re-desenhando o símbolo de minha infância solitária, típica de uma moradora de condomínio cuja a companheira mais nova era balzaquiana. A infância retratada na luminosidade do sol. No amadurecer das palavras com o chegar da primeira estrela.


Curvas que se transpassam. O verde da erva mate impregnada nos dedos e na memória inventada.
A solidão mais aconchegante de todos os invernos e, por que não?, de todos os verões. Danças escondidas. A música que escorria do chuveiro não acabava com qualquer passar de toalha nas costas. Vestia-me ainda úmida, para ter por mais tempo em mim, caso a memória falhasse, as canções escritas no vapor do suor de meus heróis munidos de teclas, cordas, melodias e vozes.


A solidão e a infância sopradas no vento das cordilheiras distantes, retorna, agora, em tinta óleo. Mancha a tela com pinceladas que só a alma é capaz de revelar. Não é de entendimento comum. É totalmente egoísta e solitária. Do universo dos versos escritos na memória do dias que não voltam mais, graças a Deus!

Não entra em jogo os sabores de se desfrutar de um dom (do qual não tenho), é  só e exclusivamente o desejo incontrolável de viver em outras línguas.


"Versos que me traduzem"...


..."soltos no universo das paixões".

terça-feira, maio 17, 2011

Sem despedida, apenas dor

...
E ficou pensando no que estava fazendo ali, no que pensava e quais monstros lhe seguravam as mãos quando tudo não passou de um fechar de olhos. Coisa comum quando se vai dormir. Coisa inaceitável quando se sabe que não se vai mais acordar. E que os sonhos de outrora não passarão de lembranças em épocas posteriores. Num pós-vida.
Quanto sangue, quanta dor.

terça-feira, abril 12, 2011

Primera publicação

Pelotas, Abril de 2010
Queridos leitores,
           Hoje, saindo da rotina e não postando novos textos, escrevo para informá-los de que, com muita vergonha e um dedinho de coragem, o conto, "O crucifixo", foi publicado na revista O Viés, em sua septuagésima quarta edição.
           Falando-lhes um pouco sobre a revista: fundada no dia 7 de novembro de 2009, a revista O Viés foi criada por dez estudantes de Jornalismo, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) - vizinhos meus -, aqui, no Rio Grande do Sul. Além da versão digital, é possível, também, consegui-la na versão impressa (é só acessar ao site e clicar em O Viés impresso! e seguir as orientações). Além de contar com os textos dos editores, a revista possibilita que pessoas interessadas colaborem de diferentes maneiras: enviado à revista contos, fotos, poesias... O que a criatividade permitir.
          Espero, sinceramente, que vocês, meus leitores, apreciem a revista e, se possível, colaborem com a arte de vocês.

Abraços e boa leitura,
Fabíola Weykamp.

terça-feira, março 22, 2011

Amor

Outro dia, ouvi uns gritos. Gritos de socorro, de desespero e dor. Larguei o que estava fazendo e saí em disparada, tropeçando nos móveis no meio da sala. Cheguei na porta de seu quarto e ele continuava gritando, já com a voz quase abafada, como se alguém o sufocasse. Implorava para que esse monstro terrível parasse de atormentá-lo, de sufocá-lo. Percebi que estava sendo sufocado pelas mãos trêmulas que tentavam tirar qualquer coisa que envolvesse seu pescoço.
Assustada, acendi a luz. Como se com a luz acesa todo o pavor fosse embora, dando lugar somente  para a paz e para a tranquilidade.  

Em seguida, ele abriu os olhos. Num passe de mágica, o quarto iluminado trouxe-o de volta para sua realidade. Estava com os olhos arregalados, o peito subia e descia bruscamente, mãos e pernas agitadas  - lembro-me do pavor que senti, do medo que abraçou-me por trás arrepiando minha nuca. Contou-me de seu pesadelo, havia, de fato, alguém o sufocando. Estava cansado, parecia que realmente tinha lutado para se manter vivo, sóbrio. Disse-lhe, segurando as lágrimas e as mãos frias contra meu peito, disse-lhe que, agora, tudo estava bem novamente e lhe ofereci um sorvete, o qual imediatamente foi devorado.
Os papéis, naquele instante, foram invertidos. Eu precisava manter o controle da situação, afugentar seus medos e receios diante da morte previsível e aterrorizadora. Dei-lhe sorvete como se eu fosse a mãe. Mãe zelosa, mas que subitamente não soube o que fazer a não ser alegrá-lo com o gosto gelado de meu amor. E havia amor ali. Mais do que geralmente cabe em mim.
Respiração controlada, mãos novamente repousadas sobre o corpo enfraquecido. Tudo estava tranquilo outra vez. Mas ao sair ele me disse de olhos fechados: por favor, só não me deixe sozinho, não feche a porta.

E ele não está. Não está. Estarei ali para quando os sonhos intranquilos reaparecerem. Estarei ali com o seu sorvete preferido. Porém, desta vez, espantarei seus monstros com o abraço mais zeloso e reconfortador que há em mim. Nem que seja pela única vez.

Lembranças esquecidas

São lembranças, velhas recordações jogadas no fundo da caixa. Fotos manchadas e rasgadas. Nem bem posso identificar meu rosto nelas - estou diferente desses dias. Sou eu esta de casaco? - não lembro de ter saído do regime. Ou seria esta segurando as flores recebidas em alguma comemoração da qual não lembro? Não, não, eu costumo franzir a testa, esta não sou eu. Definitivamente. Ou será que passei a franzir a testa depois desse dia? Não há data, sequer qualquer informação nesta foto. E nesta, será que há alguma identificação? Também não... O que me espanta, eu costumo assinalar as datas, às vezes, até mesmo a hora. Por que nestas fotos não fiz isso? Não lembro se passei a ter este costume de etiquetar, marcar, assinalar, propriamente carimbar minhas coisas depois deste dia. Não lembro. Vai ver eu preciso realmente fazer essas coisas agora, ando esquecida...

São apenas lembranças pouco revividas... Folhas amareladas, cartas sem remetente não enviadas. Outras cartas sem assinatura - não me lembro delas... esta letra nem é minha... a minha grafia da letra "a" não é completa, fechada como esta. Deixo sempre alguma brecha, vá que eu queira voltar e fazer dela um "ó"? Às vezes, é bom voltar. Voltar para aquilo que se teve... Só se é possível voltar, na verdade, quando algo não está completo, findado pura e cruamente articulado. Há sempre uma sombra deixada no passado, quando ela toma forma e cor nos pensamentos alienados é porque está na hora de voltar. Voltar e terminar com aquilo. Mesmo que para isso seja necessário fazer uma força sobrehumana para lembrar-se do sorriso de outrora. Lembro-me dos planos, esses eu lembro. Tinha muitos. Nada de muito especial ou ousado, só queria um ou dois filhos para cuidar, uma vida tranquila, com minhas obrigações com a arte e o direito de manter a casa limpa e arrumada a espera dos meus filhos e marido ao cair da noite. 

Não lembro o que deu errado. Se é que algo deu errado. Mas, talvez, tenham sido aquelas flores.  Naquele dia. Aquele moço de terno cinza, atrás dela, que acho ser eu, não me parece entusiasmado com o momento. Reconheço aquele queixo furado. Há um certo desconforto em seus ombros, um sorriso sem graça e um olhar perdido em direção a lente que eternizou esse momento por algum motivo. Não me lembro quando. O lugar, a praça  e aqueles bancos, a laranjeira brava, florida em branco... Provavelmente em pleno mês de dezembro, só pode ser em frente  àquela igreja do centro da cidade. Posso até escutar os sinos e aquela música suave de fim de tarde ao fundo.

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O telefone tocou roubando-lhe novamente a atenção. Juntou ligeiramente as velhas lembranças e as colocou de volta na caixa de madeira. Selou a caixa, fechou o cadeado guardando-a no fundo do armário, na prateleira mais alta, do lugar de onde havia tirado. Cobriu-a com os cobertores pesados do frio do extremo sul do país e fechou a porta do armário. O telefone insistentemente toca. Não olhou para trás e fechou a porta atrás de si. Aprumou o vestido bordado e atendeu o telefonema.


Não me lembro de quem nem porquê, exatamente - ainda pensou. Mas há episódios desta vida que devem ser relembrados, revividos. Porém, se a lembrança voltar sem qualquer marca ou pista de quem éramos  ou o motivo daqueles olhos opacos e, ainda assim, um sorriso estampado no papel brilhoso não for recordado é porque, simplesmente, há bons motivos para serem esquecidos. Mesmo que não se recorde o porquê disso. Também é imprescindível considerar.

Desligou o telefone com um sorriso esquecido nos lábios, pegou as chaves de casa e a bolsa e bateu a porta da frente. De volta à rotina.

quinta-feira, março 17, 2011

o crucifixo

Asco: foi o que tentou sentir. Sentiu uma repulsa crescer dentro de si. Um bolo enorme em sua garganta se formava. Sentia nojo de si. Nojo e culpa. Era a sua primeira experiência, seu primeiro contato com aquele tipo de situação. Não se sentia nervosa. Mantinha postura firme. Era firme. Cresceu assim. Desde pequena, algo que parecia nojo lhe corria pelas veias ao invés de sangue. Pele fria, mãos cautelosas e precisas. Também decidida. Ainda menina trocou o azul claro do céu do seu interior pelo tom melancólico do céu da capital. A menina com atitudes de gente grande – todos diziam – foi estudar num colégio de freiras, ela mesma decidiu. Gostava das roupas limpas, cheirando a sabão. Lençóis de sua cama perfeitamente esticados, sem nem ter marca de seus dedos calejados, grossos como os de sua mãe. Igualmente desligada de afetividades, cuidava da casa, do gado, da plantação de arroz: não tinha tempo para criar laços, enraizar ternura; cortava o mal pela raiz, por falar nisso – no próprio ventre. Paria e aquilo era tudo que haviam lhe contado sobre o amor. Uns cuidavam dos outros, a matriarca, essa não, cuidava da casa, do que forrava-lhes o estômago no fim do dia.
A menina cresceu. Talvez até tenha agradecido, do seu jeito, a madre pelos anos em que lhe acolhera. Amor era uma palavra que desde sua chegada ao colégio ouviu dizer, porém, sabia que era diferente das demais meninas - não sentia aquele calor no peito como lhe costumavam narrar, frenéticas e tão tediosas. Asco. E perto de seu sapato excessivamente lustrado, o chão umedeceu. Sua primeira cuspida. Asco e enjôo. Enjôo do quê afinal de contas? Que dedos grossos e calejados eram aqueles que mal conseguiam segurar o terço? Que pretensão era essa em amar? O quê? Como? Uma menina, sou apenas e ainda uma menina. Enojada por ser diferente de suas companheiras de classe e quarto, ou seria por todas serem iguais?; enojada, ria-se assombrada na tentativa de manter esquecida essa dor no estômago que lhe causava arrepios, fazia-lhe ver vultos, ouvir vozes, muitas vozes, as quais as freiras, incluindo a madre, tratavam logo de calar ajoelhando a menina no milho; mergulhando seu corpo enfraquecido, e, no entanto, tão firme, em banho de água benta. Água santificada, destruidora de todo mal, gritavam enquanto, debaixo d’água, a aluninha lutava para respirar.
Ainda que não mantivesse firme o terço em seus dedos, ela cresceu. Cresceu e foi embora. Herdou um pequeno apartamento de uma tia que nem mesmo sabia que existia. A menina, para a tia, era tudo o que de sua família lhe restava, por isso investiu em seus estudos, mas tampouco olhou-lhe nos olhos. De que cores seriam? A quem puxei olhos tão grandes assim? Simplesmente crescera. Descobriu mundos novos, seus mundos; interagia, revela-se firme em momentos de insignificante ternura para consigo própria. Um mundo só seu, que não lhe causa náuseas nem repulsas; onde sorrir era lembrar vagamente das mãos de sua mãe arando a terra, tocando o gado, e ajeitando a coluna curvada com as mãos rudes e argilosas apoiadas a cintura. Era tudo de que se lembrava. Não ouvia as vozes que percorriam a plantação de arroz, as que ouvia não lhe eram familiares, eram sofridas, desesperadas e horripilantes.
Fazia poucos meses que estava trabalhando no hospital público da cidade. Era firme com os pacientes, mas compreendia suas dores e vulnerabilidade. Gentil sem sorrir, de quarto em quarto, andar por andar, rezava o terço em preces sussurradas, dizia amém e partia para o próximo enfermo. Foi assim durante todos os meses em que lá trabalhou. Havia um único quarto em que lhe era difícil entrar, mas que sentia enorme e estranha necessidade de rezar por aquele paciente. Mais do que rezas, queria tocar-lhe nas mãos, beijar seu rosto abatido, mas antes de ter coragem para fazê-lo, encaminhava-se para o quarto seguinte. Todos os dias. Essa era a sua rotina. Como pode um homem de feições tão bonitas e suaves sofrer tanto assim? Cadê seus filhos? Será que tem esposa? Família? Por quê meu coração dispara toda vez que chego ao quarto 547? Por quê as orações para ele me arrancam lágrimas dos olhos? Um misto de felicidade e dor em suas poucas e jovens rugas, iguais as minhas. A dor nos uniu. Provocou-me sentimentos nunca sentidos antes. Provocou-me arrepios e um forte calor nas maçãs do rosto. Havia ligeira aflição em seu rosto, mas quando a ereta jovem entrava no quarto, exalando seu perfume de roupas muito limpas, podia perceber que aquele frágil homem parecia sorrir de satisfação. A jovem, olhando desconfiada para os lados, para que ninguém a visse, sorria ligeiro satisfeita.
Fazia o habitual, rezava o terço e rumava para o quarto seguinte, todos os dias, sem conversar com nenhum paciente, nem trocar olhares com qualquer pessoa que fosse. O que lhe dava a sensação de não ser tão firme como desejava aparentar ser. Não, não era, mas fingia ser.
O último dia daquela semana começou chuvoso. O céu anoiteceu logo pela manhã, as ruas estavam totalmente submersas, não se via carros e quase nem os telhados das casas. Um caos na mórbida capital. A jovem havia feito plantão na noite anterior, por este motivo é que não havia saído do hospital. Passou parte da noite na capela, evocando todos os deuses e santos que sua memória podia lembrar – por que se nunca fui religiosa?, nunca sequer evoquei tantos deuses dessa forma. O que estaria me acontecendo, meu Deus? As vozes que tenho escutado... rezo por elas, rezo por mim, por não parecer louca diante de tanta estranheza que me assombra, mas que não me fere mais. Por que, meu Deus, aquele homem, do qual desconheço seu passado, envolve meu coração em um sentimento tão quente, tão terno... tão... Amor? Seria isto o amor que aquelas mimadas insuportáveis do internato tanto falavam? Seria sentir do meu mais profundo ser, minha alma, o desejo de ver aquele homem tão desconhecido e tão familiar abrir os olhos para mim? Amor... amor...
Era o seu primeiro contato com aquele tipo de situação. Tentou sentir asco, e por mais estranho que isso lhe pareça, não sentiu. Não sentiu como de costume. O bolo na garganta desapareceu como se houvesse, finalmente, posto para fora todos aqueles anos de solidão e clausura de sua alma. Ela não era vítima como podia se imaginar. Era culpada, tão e somente a única culpada por reprimir e confinar os desejos de sua alma. Por transformar ternura em olhares frios e fulminantes. Mas, agora, sem saber como e nem porquê, agora, tudo estava terrivelmente diferente. Terrivelmente bom e diferente – bom não é bem a palavra, posso dizer que a sensação que me invade é, no mínimo, pretensiosa.
A jovem que, agora, mantinha a coluna curvada – igual a sua mãe antes de endireitá-la enquanto cuidava da terra, da horta – entrou muito vagarosamente no quarto 547 e fechou a porta atrás de si. O homem, ainda de olhos fechados, pareceu sentir a menina chegar; todo o seu corpo relaxou. Parada no pé da cama, a quase mulher sentiu seu coração bater apressado, quase queimando e rasgando-lhe o peito. Aproximou-se lentamente: mais e mais e mais perto da cama. Sabia da gravidade da doença daquele homem, sabia que lhe restavam poucos dias, senão horas para a sua partida para a vida eterna e, talvez, seja este o motivo de toda a sua comoção. Nunca vira alguém naquele estado. O nojo era apenas uma necessidade de fingir que nada sentia, porém, os momentos que passava naquele quarto, ao lado daquele homem de pele acinzentada e ainda com poucas rugas, apesar de agora parecer dez anos mais velho do que é, a fez querer não mais sair dali. A fez passar horas e horas rondando aquele andar; passando a todo instante pela porta do quarto; afligindo-se a cada vez que as enfermeiras corriam urgentes até lá. Aquele momento, no qual estava parada, agora, de pé ao lado da cama, era único. Nunca ficara tão próxima de alguém como desta vez. Nunca, em toda sua invisível existência, nunca importou-se tanto com alguém como se importava com aquele homem que lhe era desconhecido, mas tão, tão próximo... tão... seu.
Agarrou com força o seu terço e iniciou as evocações. Com estranha ternura e compaixão, rezou por aquele homem durante cinco horas seguidas, sendo interrompida somente por um movimento que ele fez.  O homem, praticamente entregue ao abandono familiar – se é que tinha alguém -, abriu rapidamente os olhos e encontrou com os da menina. Outra vez menina: com feições, surpresa, espanto, dor, felicidade e inocência de uma menina. Manteve seus olhos parados, fixos no semblante do enfermo, que podendo finalmente conhecer quem era dona daquele cheiro de roupas limpas, e que sussurrava orações tão envolvidas pela alma e pelo amor puro, o enfermo sorriu e com sofrida dificuldade, estendeu-lhe a mão magra e trêmula. Com profunda estranheza, dessa vez, pela única e última vez, a jovem crente não hesitou, e num ato apressado e desesperado, com as duas mãos envolveu ternamente a do homem. Afagando-lhe carinhosamente e repousando-as em seu peito. Comovido, ambos comovidos, o jovem senhor – agora que podia vê-lo tão de perto, viu o quanto era jovem, o quanto era bonito e tinha feições tão suaves -, o jovem senhor soprou alguma coisa que parecia ser um agradecimento ou qualquer coisa muito parecida com alguma possível gratidão, fechou os olhos. Entre orações em voz alta, quase gritos, suplicas, cruzes e redenções , a jovem beija-lhe o rosto acinzentado mas com aparência tranquila; beija-lhe as mãos; deita-se sobre seu peito e, finalmente, agarra seu terço com força, com toda força que tinha. Com toda força que a fez capaz de esconder-se diante dele, esconder-se de sua própria alma imaculada. 
Colocou o terço em volta do pescoço, enxugou as lágrimas num movimento bruto – como de costume -, lavou exageradamente as mãos. Em momento algum fitou seu rosto no espelho, não queria assustar-se ao ver seus olhos inchados e o novo tom avermelhado que sua pele adquiria. Endireitou a coluna, espantou a poeira de seu vestido como estivesse espanando para longe toda dor e incompreensão de ter se entregado a alguém que nem mesmo sabia o nome, igual as suas colegas de internato, freneticamente sonhadoras e tediosas.  Ajeitou uma mecha de cabelo que havia se soltado do coque e foi avisar as enfermeiras. Resolvida e enojada consigo mesma, partiu para o quarto ao lado dando continuidade a sua rotina. Até o fim.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Madrugada


Lembrar é não ver, como diria Alberto Caeiro; lembrar é sentir o que não se pode tocar nem o que não se pode resgatar. Lembrar é lembrar. Puro saudosismo em dois goles de vinho. Em processos. Num ver a chuva bater na janela, o vento soprando os galhos das árvores... Um arco-íris que desperta lá no fundo e, finalmente, o sol que surge trazendo de volta a rotina tão esperada. E o lembrar de antes, agora, já foi esquecido. 
Lembrar é lembrar. Um processo, um momento passageiro. Viver é mais, mas o gosto ainda é o mesmo: o de lembranças e o desejo de esquecer.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Revolução imanente


As coisas não deveriam ser assim,
Estamos carentes de ídolos.
Não entoamos mais cantos
De protestos. Não saímos às ruas
Em busca de nossa felicidade
E de nossos direitos.

As coisas não deveriam ser.
Vi Ruby Dee na televisão outro dia,
E fiquei pensando o quão minha geração
É carente de ídolos.
Não entoam cantos, não protestam.
Não usam sabiamente as palavras.
Estamos todos carentes de ídolos.

Minha geração é impregnada
De ignorância tecnológica.
E como ficam àqueles
Que desconhecem, sequer, esse termo?

Estou cansada de ver nos noticiários
Políticos brigando entre si,
Por coisas inúteis que não mudarão eles próprios.

Estou cansada dessa preguiça
Imanente à minha geração.
Também estou nessa! E infeliz por isso.

As disputas não são por nosso bem estar.
As brigas não são por nós. Não são para o povo.
Não buscam democracia.
São demagogas. Egoístas e podres.

O que Ruby Dee fez por seu povo,
Por sua raça, por seus direitos,
Não atingiu somente à sua geração.
Seus descendentes carregam no sangue
Esse desejo de mudança. Desejo vanguardista,
A que tanto ela menciona nessa entrevista.

Ruby Dee, Martin , Malcom X,
Gandhi, Chico Xavier:
Almas diferentes,
Mas que se aproximam e se tornam uma só
Pelo que lutam, buscam e acreditam.

No presente, porque, apesar do pouco
Esforço e boa vontade de nossa juventude,
Esses espíritos grandiosos por suas lutas
E fé, sempre fé, no próximo,
Precisam estar em nós.
Precisam fervilhar em nossa essência,
Transbordar em nosso moral
E ser entoado como hino.
O hino da nova revolução.

terça-feira, outubro 19, 2010

Na busca incessante de mim mesma

Um orgulho e uma satisfação contida em meio sorriso. Palavras e desejo de se estar perto. E a certeza de se estar no lugar certo. É tudo que tenho para hoje. A sensação de o vento tocar em meu rosto, do sol bater fundo na retina astigmática de meus olhos, é tudo que carrego no dia de hoje.
Repousei as sacolas carregadas de medos e fantasias. Coloquei-as no chão, do lado de fora da casa. Na varanda, perto do vaso com girassóis. No desejo, de que ali, floresçam novas sensações - e que sejam serenas e acolchoadas.
Apesar dos olhos astigmáticos, ainda enxergo de longe. Enxergo longe, longe, longe... como ecos que não têm fim - ainda que a Física me conteste. Soam à milhas daqui. E não se perdem no ar. Continuam flutuando, vagando até encontrar um lugar seguro para se aninhar. E só assim, cessam - por hora!
Não guardo olhares para o passado. O que, de fato, me interessa é o que ainda desconheço. Ainda que não me falte argumentos para ficar, tomo dois goles de café e bato a porta da frente. Ando reto e desejo alcançar meus horizontes. Quem tiver fôlego, que me acompanhe. Os demais que aspirem um pouco de sol e sintam o vento nos cabelos, ali na varanda, perto do vaso com girassóis. 
Estou de saída e não tenho pretensão de voltar. A cada quilômetro percorrido, junto uma porção de meios sorrisos dados e formo em um largo e satisfeito sorriso bem dado. Sem vontade de se desfazer. Apenas somar. Porque multiplicar implicaria pular algumas etapas, e quaisquer que venham pela frente: são necessárias. Por isso, digo que já fui. Já estou lá. E que me acompanhem os saudáveis de coração.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Fatias de nós

É como se não houvessem palavras partidas.
Tudo, enfim, é a força do hábito.
Podar uma árvore para que novas folhas nasçam.
Cortar estradas para que o percurso seja breve,
e o (re)encontro - por favor! - seja demorado.

Cortar, fatiar, partir: nem sempre a dor sentida é deveras triste.
Esquecer, perder, negar: isso sim é fazer doer.
Não me esqueça. Apenas me parta e me fatie em pedacinhos bons.
De lembranças em imagens recortadas, rememoradas em flash-back
de um percurso longo ou breve, de um toque na mão ou no coração -
mas que aquece de ambos os jeitos.

Fatie-me em feixes de luz.
Desdobre a Física, e tenha-me luz na vertical.
Invente-me a cada novo amanhecer.

Eu, mesmo que do alto, continuarei à espreita, à espera de ti
juntando nossos pedaços partidos em longas conversas.
Colando-os em cores alegres, costurando-os em bandeiras de paz,
formando, novamente, um mosaico de nós dois.

Não engane-se: as palavras de antes partidas
são feitas de sentimentos intactos, puros -
fatias de nós.

segunda-feira, setembro 06, 2010

Ir

Seguir à risca as coordenadas médicas.
Seguir à risca os conselhos dados. 
Seguir por simplesmente seguir.
No entanto, o desejo encoberto por cápsulas
e tapinhas nas costas é de não seguir. 
É de puramente ir.

domingo, agosto 08, 2010

Meditação

As noites são escuras para todos.
Não há quem supere seus medos em noites como essas.
O pranto, tanto faz o seu motivo, é substancial.
Reflete o passado, que de distante, nunca existiu.

Curva-te para essa mulher, que assim como tu, busca ser alguém.
Um alguém que não seja ela, assim, tão oca e íngreme.
Íngreme como a escalada daquela montanha na manhã de domingo,
trabalhosa por suas imperfeições.
Buscas ser, decerto, alguém e esse alguém precisa ser distante de si.

Uma barra de ferro pendida no ar é mais valente frente a sua própria dor – pressupões.
Mas o poço está coberto. As janelas estão fechadas.
Há quem diga que o telefone também está cortado.
Ele, do amor ao ódio e, por fim, a aceitação,
também te busca no silêncio das noites
enquanto estás parada em frente a parede rosa, que agora, bate junto ao peito.

O zelo dessa dor é tão confuso quanto ameno.
A solidão que permeia por essa noite também é minha.
Sou solícita, complacente a dor que te aflige e
que tampouco é minha.

Substancial e desigual ela atinge as manhãs.
Rompe com o silêncio de pântano,
rompe com a liberdade em escala. 
Agora, livre, podes ecoar esse teu canto melódico e sombrio,
que pousa em mim como um alento - como um filho a quem dou meu seio farto.

Uma cumplicidade sigilosa, secreta de duas almas que estão de mãos dadas,
e onde quer que estejam cantam intensamente
a dor que as acompanha e as une.
Tornando a imagem refletida no espelho: uma só.
Brumosa, vaga, alheia, sem forma. Mas uma só.

O lago que és reflete a imagem do que fostes:
plácida a traições, fria e subversiva quando tratado de ti mesma.
Ingênua, doce e triste.

Uma menina que perdera o sorriso fácil ainda quando moça.
Hoje, uma mulher tão ou mais forte
quanto aquela barra de ferro pendida no ar.
Ainda flutuas sob os oceanos puros
que a liberdade apressada te recompensou.
Flutuas leve e amistosa, tranquila e vagarosa nos rochedos do meu eu.

domingo, agosto 01, 2010

O último gole do filósofo

Não, não era o homem que queria ser. A intimidade sibilina com Aristóteles e sua Grécia Antiga teria feito em profusão esta carne opaca e sem pouco viço, de difícil diálogo amistoso e introspecção exagerada. Encontrava a cura para sua demasiada sapiência e dor em dois goles de cachaça. Dois atrás de mais dois e assim, durante uma noite inteira até o sol despertar, dois goles de pinga era o que ele dizia que havia bebido. O trem partiu sem que ele se despedisse, nem um aceno tímido de longe ele deu. Dois dedinhos, meu caro - ele pedia ao garçom magro e acinzentado que fitava o relógio de minuto em minuto aflito para estar em casa e tirar aquele cheiro de desgraça de seu corpo. Mais dois dedinhos aqui, meu fi... - soluço. Ezequiel era o nome do garçom, mas os frequentadores daquele bar fétido não faziam questão de saber. Queriam ser servidos. E o serviço tinha de ser rápido, igualmente aos seus lúcidos conhecimentos sobre ética e metafísica.

Aflitos em sua desgraça e descrença. Aflitos por não terem para aonde ir. Aflitos por não sentirem outra coisa a não ser essa: aflição sincrônica ao desconhecimento imbecil de suas próprias limitações. Uma mistura de pena de si mesmo com um bocado de pressa. Pressa de quê, exatamente, nunca ninguém soube. Nem eles mesmos, donos de suas próprias aflições agudas manuscritas em exaustivos ensaios acadêmicos. A legião acadêmica, composta por renomados e ilustres donos de uma oratória invejável, pontualmente batiam seu cartão naquele bar.

O trem partiu e, da estação, as despedidas eram mais frequentes do que os reencontros. Despedidas zangadas. Despedidas adormecidas no colo das mães. Despedidas agoniadas. Despedidas corrosivas. Despedaçadas, desprendidas. Aqueles dois dedinhos de pinga mais um dedinho de prosa com o acompanhante misterioso, que a própria física insiste em decodificar seu espectro e sua constituição de cargas elétricas magnetizadas, fizeram com que o último suspiro de adeus não fosse ouvido. Ouviu-se um choramingar baixinho e inconformado. Ouviu-se o som da mala fechando. Ouviu-se um gole de cachaça descendo e queimando a goela seca do moribundo de alma. Não se ouviu um adeus. Ouviu-se um último soluço etílico e um brinde à... Não se ouviu decerto. O copo deslizou de sua mão e o moribundo, cujo raciocínio era tão brilhante quanto de uma vaca, espatifou-se no balcão.

E o trem novamente deixou aquela estação. Um último adeus a Platão.

quinta-feira, julho 29, 2010

Prólogo da dor

Se, perder-se no infinito-eu fazia parte do plano,
contento-me com o que sou agora,
na posição em que cheguei,
e cruzo os braços sobre minha barriga – àquela de que outrora recebia,
frequentemente, a visita das borboletas –
na espera sem forças de outro alguém.

Mantenho os braços cruzados diante
da minha própria impessoalidade,
quem sabe passageira,
e recosto na cadeira o dorso curvado
por carregar sobre os ombros
o peso de um mundo que não é meu.
Mas que dói corrosivamente.

Aos poucos. Em prantos.
Eis então, aqui, a parte de mim
que te cabe saber.

sexta-feira, julho 02, 2010

A Deus eu peço


Se era para ser clara a noite
que despertava em zelo árduo
e significativo dos fados de inverno,
                          
que renasça em mim,
em novo acorde, um suspiro longo e macio
para que da aurora pudéssemos aproveitar
a nova chance de aqui se estar,
como antes, como quando, ao berrar dos galos da fazenda,
a parteira vinha comigo aos berros - eu querendo o teu colo quentinho –
e tu querendo ouvir minha respiração ao pé do ouvindo.